segunda-feira, maio 23, 2005

Primavera no Wisconsin

Na limpidez tranquila da manhã diáfana
em que as despidas árvores imóveis
são como nervos ou expectantes veias
no corpo transparente do azulado ar,
as águas quietas, mas não tanto que
nelas se espelhe mais que a concentrada cor
do ar tranquilo, nem tão menos que
pareçam gelo perto as águas mais distantes,
pousam na margem delicadamente
como na mesma terra infusas se dispersam
dos ramos e dos troncos sombras confundidas.
A terra se amarela de ante-verde
e, sêca, espera, entre a neve que foi
e o ténue estremecer da seiva que desperta.


(Poema de JORGE DE SENA)

domingo, maio 22, 2005

As Casas Vieram de Noite

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas


(Poema de LUIZA NETO JORGE)

sábado, maio 21, 2005

O Tempo da Lua

O tempo da lua é o tempo do labirinto
De tudo o que sei e sinto,
Espaço estreito e apertado
Entre a imensidão de um outro espaço
compassado.

O tempo da lua é o tempo da terra,
da água,
da roda e do ventre
um tempo repetido, persistente
um tempo gota-a-gota
grão-a-grão,
tempo-fio tecido em trama
e ilusão.

O tempo da lua é o tempo da loba
Do uivo e do medo, da presa e da toca
Luz branca coada num imenso céu
Desenhando letras sobre um fundo breu.


(Poema de MARIA TERESA MEIRELES)

quinta-feira, maio 19, 2005

Silêncio das Horas

Um silêncio que invade
Silêncio intenso profundo
Mais denso que mundos do Mundo
Procurando com ansiedade um grito
De vento de liberdade
Medos plantados fundo

São horas de horas eternas
Correndo lentas e apenas
Em breves minutos passam
Sufoco de gritos no peito
Pensares sentires desejo
Dores de morte abraçam

Um rio de pérolas fluente
Um mar negro de gente
Sombras véus e de mantos
Voando na hora silente
Abandono cru de encantos
Tempo de silêncios brancos

Horas paradas de ternura
Abrigo da chave na mão
Brilhando amor sedução

É a voz que ao longe murmura
Silêncio de horas amargura
Desilusões que o não são

terça-feira, maio 17, 2005

Ímpeto solar

Bebo-te em palavras rubras
Desejo de morango em gelatina
E estremeço e me deixo
Saborear qual loba faminta

Bebo-te em letras escaldantes
Fulgor de banana-pão e de jaca
Na fritura no ardor
Que me queima torra e assa

Bebo-te em tons de risos
Anseio de framboesa em mel
Dobro desdobro me enleio
Com doçuras e sibilos

Bebo-te num ímpeto solar
Te degusto em tinto vinho
E te uso e te abuso
Entre a ementa e o manjar

sábado, maio 14, 2005

Quem diria!...

Rosa em pétalas sentada
Esta noite adormeci
Me quedei silenciada
Na espuma alvoroçada
Do mar que em ti vi

Célere voou o pensamento
Enleio dum abraço sentido
Protecção um doce abrigo
Palavras sorrindo ternura
Nos instantes no momento
Pleno vivências candura

Foram horas foi um dia
Enlaçados num segundo
Laço que não deslaço
Deslize terno pr’o mundo
Teu Sorriso feito abraço
Quem diria!...

terça-feira, maio 10, 2005

sonho-canção

Pudesse dizer meu amor
Meu carinho pão-de-mel
Ternura querido fulgor
Doçura azul meu farol
Dançando sorrir cantar
Toadas ternas m’embalar
No aconchego da luz e paz

Pudesse eu t’ofertar
As cores do arco-íris
Alvas imaculadas
Puras
Verdes rubras
Laranja cobalto em matiz
D’ouro e prata pinceladas
Em marfim

O cosmos refulgente ser
Estrelas sóis luas um astro
Lonjuras eternas correr
Para te oferecer um afago

Ser águia lince serpente
Sáurio peixe golfinho
Átomo molécula insecto
Só somente
Parte de ti num carinho

Pudesse ser o mar a natureza
Estável serenidade luz brilhante
Mas sou rocha que não quebra
Sou traço linha que não verga
Coração forte que não bate
Que omite olvidando apaga
A vida tudo se pudesse…


(alterações a um poema de Set. 2004)

quarta-feira, maio 04, 2005

Poema verde

Se fosse o poema verde
O verde do teu espanto
Me vestiria d’encanto
E te daria… te daria
Uma branca pradaria
Numa asa azul fulgente

Se fosse o poema verde
O verde dos desejos teus
Rubro véu me cobriria
E voaria… voaria
Em ramos de sóis nos seus
Laços de brilho ardente

Se fosse o poema verde
O verde que esperas tanto
A Aurora o entardecer teu
Seria… oh se seria
O beijo a pele o manto
A doce essência
O fruto em flor meu

sexta-feira, abril 29, 2005

Grinaldas

Grinaldas são
Chocolates doces
Que se abrem no caminho
Ternura de amores
Trilho em amplidão
Que se desdobra sozinho

Coroas de flores belas
Maviosas singelas
Seda veludo tecidas
Aves plumas esbatidas
Na solidão e contudo
É um enlace desnudo

São pétalas de rosas
Etéreos voares
Essências deleitosas
O silêncio cantante
Luz a cada instante
Formas d’amares

É alegria é saudade
Amor puro a verdade
Plenitude de dar
Voando pela palavra
Da ternura adorada
É partir e voltar

quarta-feira, abril 27, 2005

Poema desconexo

Vagueio num mar de letras
Poema sem ligação
Horas batidas no tempo
Que mais não são
Um denso momento

Rosa-dos-ventos girando sem vento

Vejo movimentos atados
Laços de escuridão
O negro encanecendo
Sinfonia sem mãos
Poesia estremecendo

Nuvens toando cavalos alados

É um poema desconexo
Na selva das folhas
Tombadas incerto
Ténue sopro d’areia
No sal do deserto

Poesia de pólos amorfos sem meias

terça-feira, abril 26, 2005

Verde sol

Dizem que o sol é brilhante
Quando canta a tua canção
Ondulante

Dizem que as searas se transformam
Em mares d’oiro alquímico ao luar
Nas tuas mãos

Dizem que o peregrino estrelar
Ave sedenta de sons coloridos
Deslizantes

Te seguem
Percorrem
Se vestem
Desnudam
Transmutam
Atentos cantam
O canto
Que
Queres

Dizem… verde sol somente

terça-feira, abril 19, 2005

Fios de Letras

Entre as verdes letras tento
Insegura uns passos dar
Vendo sentindo sabendo
Das letras o seu dançar

Com meiguice se desdobram
E se dobram
Lançando flores em laços
E cantam encanto de mim
Suavidade sem fim
Transformadas em abraços

Ténues fios em suspensão
Translúcidos transparentes
E deslizo
Bailando em letras pendentes
São momentos em que não
Existe abrigo

No silêncio me quedo assim
Em ternura
Na candura
Serenidade de mim
E me sento
O canto das letras contemplo

Em doces pétalas enlaçada
A porta entreaberta olho
E escolho
A simplicidade encontrada
Das cores puras delicadas
Os fios de letras abandono
Sem mágoa sem dolo
E sigo abrindo
Flores por poetas cantadas
Num azul sonho
Sorrindo

domingo, abril 17, 2005

CORRENTE DE LITERATURA

Tendo sido apanhada nesta corrente literária, agradeço
as amáveis palavras que me dedicaram os blogs:

www.outravoz.blogspot.com
www.conversasdexaxa3.blogs.sapo.pt

Assim passo a responder às perguntas:

P: Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro
gostarias de ser?

R: Todos e nenhum. Todo o tipo de literatura me encanta

P: Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem
de ficção?

R: Vivo qualquer tipo de livro. Apanhadinha, não.

P: Qual foi o último livro que compraste?

R: “Memória das minhas putas tristes” de Gabriel Garcia
Marquez

P: Qual o último livro que leste?

R: “Os amores de Safo” de Erica Jong e
“The Kitchen God’s Wife” de Amy Tan
“O mistério do jogo das paciências” de Jostein Gaarder

P: Que livros estás a ler?

R: “A obscena senhora D” de Hilda Hilst
“Encontro com o Mestre” de Mestre DeRose
“Ilusões” de Richard Bach
Diversos livros de poesia

P: Que livros (5) levarias para uma ilha?

R: “Ulisses” de James Joyce
“O sentimento de si” de António Damásio
“A Selva” de Ferreira de Castro
“O Império” de Gore Vidal
“O sangue de Cristo e o Santo Graal” de Michael Baigent,
Richard Leigh e Henry Lincoln (para reler)

P: A quem vais passar esta cadeia (3) e porquê?

R: Ao Fernando B. do blog: www.lusomerlin.blogspot.com

Ao José Gomes do blog: www.movimentum.blogs.sapo.pt

Ao Bené do blog: www.oapanhadordesonhos.blogspot.com

Motivos especiais não tenho, a não ser que são bons e queridos
amigos que espero aceitem o desafio.

A todos(as) os outros(as) Amigos(as) que muito prezo e admiro
um cantinho muito especial está guardado em mim.

sexta-feira, abril 15, 2005

Anatomia

São olhos, são mirantes
misteriosos, indagantes
os passos que aqui passam

São braços longos, envolventes
tentáculos nus, inconscientes
os olhos que me enlaçam

São mãos finas, delicadas
afagantes, espantadas
os braços que caem pendentes

São pés que correm sinuosos
ziguezagueantes, tortuosos
as mãos tacteantes, frementes

São corpos, peles, amantes
de outros que por instantes
os pés levam em correria

São eternas mentes
que leve desmentes
É Anatomia!

domingo, abril 10, 2005

São Olhos...

Teus olhos, amor, teus olhos
Na noite fria, na densa escuridão
Têm a dureza do aço mais não são
Que pedras negras, opacas, então

Teus olhos, amor, teus olhos
Pelo entardecer quando o sol se deita
São terra castanha, a areia que enfeita
Paisagem dormente em que se deleita

Teus olhos, amor, teus olhos
Na claridade fogosa intensa do dia
Ardem verdes matizes da pradaria
São ventos sibilantes em correria

Teus olhos, amor, teus olhos
Na tímida luz da aurora despontando
É barco à deriva de azul mar tentando
Inalar laços pontes no sufoco do canto

Os olhos, amor, os olhos
Que passam nos tempos serenos
Cândidos ternos alegres amenos
Condoídos piedosos são eternos

sexta-feira, abril 08, 2005

Brilhos

Conversando baixo, baixinho
Seguindo murmúrios, carinho
Pela leveza do éter voei
Seguindo rubros trilhos incauta
Beleza luzente de quem canta
Subtis promessas, amei

Da Aurora cantante me vesti
Com serena alegria me cobri
Foram só instantes, momentos
Percurso que o sonho dormente
A razão despertou inclemente
Me quedei em águas, tormentos

Vejo a porta entreaberta
De luz, em luz encoberta
Sinto o sol da lua musical
A flor aberta fremente
Rubras pétalas, ardente
Areias densas finas de sal

Mas no tudo eu sou nada
Nem pão, água ou espada
Nem pó, godo ou trilho
Trajo somente o sorriso
Doce, ameno, no brilho
Da ave nua, terno abrigo

terça-feira, abril 05, 2005

Fazei-vos à barca...

Fazei-vos à barca, senhores
Enquanto as águas são paradas

O cais se apinha de povo
De todos os credos e cores
Para ver que há de novo
Com o apelo da barca

Chegam ricos, chegam pobres
Carregando suas sortes.
Vêm os novos e idosos
Carentes e curiosos
Há mãos que oiro abraçam
Ombros pesando desgraça
Rostos em cor luminosos
Pés dolentes que s’arrastam

Fazei-vos à barca, senhores,
Enquanto a noite se fez dia
Trazei os vossos amores
A desesperança que porfia
Teceduras cruas da vida

Fazei-vos à barca, senhores…


Poema in "Transparência de Ser"

sábado, abril 02, 2005

Silêncio dos Sons

São vozes que falam caladas
Subindo encostas escarpadas
Qual gaivota verde no mar
São raios rubros de flores
Espelhantes
Em estilhaços de amores

São sons densos musicais
Que transformo p’ra que tais
Vozes falem baixinho
Em sussurrros
Ternos doces carinhos
Vagueando pelos ares

São sons de silêncio cantantes
Entre as brumas distantes
Num entardecer, na aurora
Na ténue luz que fez dia
E não previa
Ternos cantares d’instantes

São silêncios coloridos
Refúgios, lares, abrigos
Vozes longínquas de quem
Pleno d’amor vem
Completar o silêncio dos sons
Em laços pontes amigos

Pelo silêncio dos sons vagueio
Premeio
Sentidos

quarta-feira, março 30, 2005

A Jura

Jura-se pela cegueira
Sendo essa a primeira
Que sai de almas caladas

Jura-se pelos filhos a saúde
Pelo desamor que a miúde
A cada momento passa

Jura-se pelo raio ardente
Caindo na cabeça demente
De quem a jura abraça

Jura-se no altar perante Deus
Eterno amor, olhos nos céus
Respeito e fidelidade

Jura-se em surdina até
Em rezas que a mofina vê
Quando se jura mais alto

Jura-se não dê um passo mais
E outros dizeres que tais
São juras que eu não canto

Jura-se a torto e a direito
Por orgulho por despeito
De descobertas passadas

Jura-se em actos de amor
Ou em confrontos de dor
Tempestade ou calmaria

Jura-se tanto, mas tanto
Que a jura perdeu encanto
E tornou-se romaria

domingo, março 27, 2005

Momentos

Jamais estava sozinha nos sítios onde passava
ou no silêncio da casa. Sabia-se acompanhada por
sentimentos alegres, decisões que tomava..
A surpresa raramente à porta batia, pois previa
o esvoaçar de asas que se aproximavam: o movimento
impaciente do colibri; o piar tímido do pardal
depenicando a relva do quintal; o rugido do leão
chegando com olhar de falcão tentando apanhar sua
presa incauta; a ânsia da pequena lebre que corria
pelos bosques encantados da vida; as borboletas, as
flores que chegavam vestidas das cores do arco-íris
ou da negritude da noite.
Um sorriso os esperava, uma ruga preocupada,
transmutada em carinho.
Eram momentos plenos sentidos e as folhas mortas ou
secas que caíam ou tropeçavam, transformavam-se em
flores de verde garrido, em aves planando na doçura
da brisa.


A Natureza vive
Revive
Transmuta
Se muda
Na doçura
Candura
Do abraço
Num laço
Sereno
Ameno
Dum sorriso
Amigo

quinta-feira, março 24, 2005

Viração

Voam horas, soa o tempo
O mar s’agita de flores
Brancas, diáfanas
O raio de fogo aclareia
O crepúsculo das dores
Na noite que tu enlaças

Gira a lua, o sol s’esconde
Orgulhoso do seu manto
Tecido de rubras pétalas
Que caem, vão desflorando
Caminhos onde tu passas

As Sílfides correm enquanto
As Musas buscam seu canto

quarta-feira, março 23, 2005

Cidade do Porto (Origens)

Esta bela cidade, cujas origens remontam a uma antiguidade
de 4 ou 5 mil anos, debruça-se sobre o Rio Douro e é beijada
pelo Atlântico.

Nasceu nos morros da proximidade da Sé.
No século IV, durante a ocupação romana e devido à Pax Romana,
foi construída uma estrada que ligava Lisboa a Braga.
No seu trajecto, esta via passava pelo curso terminal do Rio
Douro e, para norte dele, o primeiro troço vial correria pelo
vale do Rio da Vila (ribeiro hoje encanado) desde cerca da Sé,
até ao seu desaguadouro na zona da Ribeira, tornando-se este
o local priviligiado para a fixação romana.

Aparece, então, a palavra Cale (estação), comum a ambas as margens,
designando os pontos, um a norte outro a sul, do Rio Douro, onde
se faziam o embarque e desembarque de viajantes e mercadorias
em trânsito.

Portus (portorium) era um antigo imposto de travessia, cobrado
na Cale.
Daí o aparecimento de Portucale que viria a ser só a povoação da
margem direita do Douro, núcleo da futura cidade do Porto.

Uma das mais antigas cidades do País, berço do Infante D. Henrique
e de muitas ilustres personalidades, desempenhou sempre um papel
importante ao longo da nossa História.

segunda-feira, março 21, 2005

Sem Meta...

Se vejo o que me dizem
não ouço o que me mostram
Se apalpo o que me falam
eu calo o que me sentem

Se ando estou parada
não consigo evitar
Se penso fico a nadar
só na primeira palavra

Se emudeço eu não sinto
Se sonho não vejo nada
São sonhos de encantada?!
Verdade? Será que minto?

Uma coisa é bem certa
em letras eu me desfaço
sorrisos eu dou, abraço
serenidades sem meta
carinhos afago...

quinta-feira, março 17, 2005

Entre os Anéis da Lua

Passos, compassos, espaços
Areais e matagais
Instâncias, constâncias, distâncias
Entre os anéis da Lua

Rosas formosas, ditosas
Abrindo, florindo, sorrindo
Braços seguem abraços
Flores em verdes prados

Ternura, doçura, candura
Avistada, ansiada, alcançada
Luz de luz que seduz
Entre as plumas dos mares

Espanto, canto, decanto
Águas sem mágoas
Corro, percorro, discorro
Serenidades…

terça-feira, março 15, 2005

Da Luz Que Se Esvazia...

Da luz que se esvazia coisas vultos
um espaço opaco todavia fica
em que a memória em vão procura abrir-se
a imagens de lembranças: rostos, sexos, pernas,
e o delicado recurvar dos ombros
ou de perfis. Não se recorda nunca,
ou se não sonha do que foi antigo
e ardente em nosso corpo, se não há
outros rostos depois e os mesmos gestos.
Não de passado se alimenta o vivo
quadro acendido em sonhos e lembranças,
mas o passado se renova em cores
com de que as formas repetidas sejam.
E quando esse halo opaco de vazio
a pouco e pouco nos rodeia a vida,
nem o lembrar nos resta, e os sonhos não se entregam:
crepuscular a luz obscurece tudo.

(Poema de Jorge de Sena)

segunda-feira, março 14, 2005

Seguindo o Mote

Quando me sento
para um sonho teu colher
serenidade bebo
de memórias, de amares
ternas brisas dos ares
doces letras quedo a ler.

Das profundezas do mar
dou-te as flores minhas
p'ra teu canto embalar
poemas
ou temas
luz que tens que tinhas.

Seguindo o mote, meu amigo,
um poema simples deslizou
em brandas letras abertas
e certas
Em candura voando
o oceano cruzando
te deixo
um beijo
a serenidade do meu sorriso
E assim, me vou.

sábado, março 12, 2005

Tempos

Ontem me soube
Hoje me sei
Amanhã serei
Talvez
Folhas de nada

Ontem me brilhei
Hoje me brilho
Amanhã brilharei
Sabe quem?
Pedra rocha apagada

Ontem me li
Hoje me leio
Amanhã lerei
Ou não
Asas de vento segadas

Ontem me ouvi
Hoje me ouço
Amanhã ouvirei
De vez
Silentes horas paradas

Agora sigo
Meu sereno sorriso

sexta-feira, março 11, 2005

Flor de Cambraia

Nasceu uma flor de cambraia nas belas terras do Norte e de fina
seda foi vestida, pela vida, nos idos tempos d’outrora.
Aprendeu canto, piano, o bordado e o francês daquela época; flor
que foi desabrochando entre as belas a mais formosa.
Encontrou seu grande amor entre pomares, milheirais, teatros,
récitas e cantos para fins beneficentes, gente carente que ajudava
e confortava com sua presença constante.
Percursos de cartas, notinhas escritas no papel que havia à mão,
ternos olhares, encontros furtivos nos muros da quintinha, entre
a alegria das desfolhadas procurando o milho-rei e cantando ao
desafio.
Amor que a família da bela flor não aprovava.
Desafiando espessas tempestades, mares revoltos, pontes suspensas
em escolhos de distâncias, tudo venceu.
A pequena flor de cambraia, tornada na seda mais pura, alimentando
o brilho intenso profundo dos anéis da lua, das folhas do sol, foste
tu, assim viveste em candura, minha Mãe.

quarta-feira, março 09, 2005

O Silêncio das Horas

É um silêncio que invade
Em silêncio intenso profundo
Mais denso que mundos do mundo
Procurando com ansiedade
Um grito de vento liberdade
De medos plantados fundo

São horas de horas eternas
Correndo lentas e apenas
Em breves minutos passam
Sufocando os gritos do peito
Pensamentos sentires desejo
Dores em morte abraçam

É um rio de pérolas fluente
É um mar negro de gente
De sombras véus e mantos
Voando na hora silente
Abandono cru de encantos
Tempo de silêncios brancos

É a voz que ao longe murmura
Silêncios de horas em amargura
Desilusões que o não são
São horas paradas de ternura
Abrigando a chave na mão
Brilhante de amor sedução

O mel do amor sentindo
O silêncio das horas abrindo

segunda-feira, março 07, 2005

Espelhando...

Páginas e páginas escrevi
Cadernos ou folhas dispersas
Frases, letras, voantes, certas
Em nós a Beleza antevi.

Algumas curtas ou difusas
Palavras que usas, não usas
Em rectas
Concretas
Outras seguem transversais
Desdobrando luz d’espirais

Momentos doces em nós
Sento, me quedo sem voz

Leio, releio, modifico
Nas entrelinhas me fico
Procurando
E achando
Frases soltas nos ares
Colorindo divagares

São sonhos, são ilusões de areia
Nuvens d’orvalho, canto de sereia
Palavras que digo, disse, não disse
Todavia em mim sempre sentiste

A candura de acalmias
A minha serenidade
Com sofreguidão bebias
Ó crua tempestade

Olhando no tempo a palavra, a frase
Um terno sorriso me espelha a face

quarta-feira, março 02, 2005

Nesta Aurora de Março

Despertou uma manhã cinzenta e gélida neste início de Março.
Olho através duma tímida frincha da janela que abro.
Pensamentos dolentes me atravessam como raios que afasto ou tento.
Não vejo o mar que se escondeu por entre as árvores, do outro lado,
no encanto do parque da cidade.
Por esta frincha que abri, entram árvores semi-nuas, despontando
flores brancas, rubras; entram colorações de verdes intensos perenes,
o branco de paredes distantes, o cinza denso do céu, descolorante do
azul nesta aurora de Março.
Todavia, com carinho sorrio recebendo os bons-dias dos chilreantes
passarinhos, das rolas bravas, rouxinóis em cantante melodia,
iluminando minha mente num dia que cinzento parecia.

Quando um dia eu fenecer
deitada em pétalas de rosas
não tragam flores formosas
Tragam a beleza dum sorriso
raios de sol, um doce abrigo
d’ amores, o mais sentido
Tragam a luz, a claridade
dos azuis; a côr, serenidade
da música, para me oferecer

sábado, fevereiro 26, 2005

Telhados de Vidro

Esta cidade Invicta, antiga,
de existência milenar
onde me recolho na vida
que do Norte foi trazida,
repousa em beleza ímpar

Recordo o verde do Minho distante,
suas casas solarengas, brasonadas,
milheirais, vinhedos, da gente
simples, activa, sorridente,
dos espigueiros, castelos, muralhas.

É nesta Invicta que vivo, vendo
telhados de vidro, estilhaços de vento

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Heresia...

Se água é purificação
Então grito renasci
Em águas do coração
Pecados não cometi
E me apago
Desfaço
Em orvalhos espessos constantes
Torturas prolongadas instantes
De negros com negros trajados
Não mereci

Abandonos profundos vendo
Qual moinho ou catavento
Rodando sozinho
Sem velas, brisas ou vento
Bátegas de chuva louca, cega, densas
Que não regam as tormentas
Da secura do caminho

Olhando confiante o firmamento
Acesa a luz da fé conservando
Tantas vezes esmorecendo
Se apagando
A reacendo
De mente
Nua

Na chuva
Densa

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Na areia grossa

Não sei se era noite, se dia. Não me recordo. A mente não me dizia, correndo o tempo.
Indicaram-me uma casa antiga como sendo um templo.
Entrei num átrio sem nada, de paredes altas e, à minha frente, deparava-se uma alta escadaria que subi, sem cansaço.
De novo um pequeno hall nu, uma semi-obscuridade, que tinha como ornamento uma singela mesa e uma cadeira onde te sentavas tranjando tons escuros.
Ninguém saiu nem entrou, não vi janelas nem portas e, como num passe de magia, desapareceste.
Procurei-te por todo o lado percorrendo salas de nada. Minhas botas afundando em areias grossas mas segui, sempre, em frente. Cruzei portas, atravessei um postigo em busca das vozes que ouvia distantes. Um casal tagarela e sorridente, em sentido inverso ao meu, passou o postigo, sem me ver, tal era a cumplicidade entre os dois.
Regressei, sem qualquer temor, envolta na mesma serenidade desde que naquela casa entrei.
Mas…sempre que dava um passo, as minhas botas afundavam…na areia grossa.

Dos sonhos e seus mistérios
Coração descompassado
Saltando
São segundos infindos
No éter voando
Parábolas da Mente…

sábado, fevereiro 19, 2005

A Festa

De rubro as unhas pintei
Sapatos altos calcei
Para a cerimónia que havia
Lá, onde a noite era fria

Vesti trajes lindos, luzentes
Tudo e nada condizentes
Comigo. Estampei a alegria
No porte para as gentes
Que (des)conhecia

Impávida e serena seguindo
Entre os brilhos, as presenças,
Socializando, sorrindo,
Noite fora dançando
Braços e braços enlaçando
Rodopiando aparências.
Dizeres, olhares,
Desejos d’amares
Quando passava, sentindo…

Onde andavas, amor distante,
Não me largando um instante
E de saudades vestido
Dias, noites, horas a fio
Por ti, em ti, esperando…

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Poeta

A noite pertence ao alto poeta
Divagando, ilusão discreta
Faz os leitores sonhar
Percorrendo os caminhos
Acompanhado ou sozinho
Com um sorriso p’ra dar
Seus amores são imensos
Desde o A até ao Zê
E querem saber porquê?
Vendo a forma de cada letra
A cor, o som, a beleza
Que cada emite ao desenhar.
Umas lembram pradarias
Outras, mares, nostalgias
Ventos, também luares
Desertos, oásis incertos
Sóis, brilhos, estrelares
Universos coloridos
Nuvens, doces abrigos
Melancolias d’estares
Silêncios d’amena música
Encontros de véus e túnica
Maviosos deslizares
Tudo serve, tudo é vida
Tudo morre ou intriga
Tudo passa a fenecer
Ou em luz a renascer
Para correr, parar, não ver
Ouvir ou emudecer
Pensar ou só amar
Ouvindo música a pairar
No silêncio ou na distância
Tanto faz, tudo é poesia
Entre ânsias e acalmias
Falar do poeta p’ra quê
Se a vida é o que lê
Cada qual em seu mirar
Aquilo que sente agora
Em segundos, sem demora
Torna-se fumo no ar
O poeta é um belo pensador
Do faminto, sedento leitor
Poeta, eu te bendigo
Por existires, amigo
Na música que trazes contigo

sábado, fevereiro 12, 2005

Eu Sei...

Eu sei que o azul é mais intenso
Nesse mar longo, imenso
Desfazendo-se em espuma
Nas areias brancas das dunas
Eu sei que os prados extensos
Na sua maciez verdejante
Lembra a seda brilhante
Transformada em finos véus
Eu sei que flores do campo despontam
Tímidas e suas pinturas mostram
Alegrando as bermas da estrada
Viajante, onde tu passas
Eu sei que as noites dos poetas
Luzem mais, estão despertas
Em dourados estrelares
E da lua os seus mares
Eu sei que o mundo vive suspenso
Da palavra e do ondear do vento
Que anseia paz, serenidade
Para o Homem, a Humanidade
Mas quem sou eu, se o que sei
Não transforma anseios em Lei?

domingo, fevereiro 06, 2005

O Concreto

Desce a noite no concreto
Com manto de denso véu
Faces mostrando esgares
No asfalto
E na calçada
Batem céleres calcanhares
Sombras de frágeis árvores
Sobranceria d’outrora
Sem o breu
Que o concreto alaga
De porta em porta
Agora

Num cantinho da sacada
Ouvem-se murmúrios surdos
Gente que está parada
Escutando mudos
No concreto
Que sobe, trepa aos céus

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Ao Amanhecer

Afio o lápis de novo, devagar,
Das letras, meu companheiro
E espero
A junção das letras, soltas, dispersas
Que vejo
Pairando nuas no ar

Contorno linhas, quadrados,
Entretanto,
No papel à minha frente
Sombreio quadriculados
E vagueio
Em sombras de letras, somente

Célere passa o tempo correndo
No silêncio, nesta ausência
Das letras
Transparências, movimento,
Brisas,
Pontes, correntes e vento
Em serena pradaria
Prevendo
Luz plácida do dia
Amanhecendo...

sexta-feira, janeiro 28, 2005

A Vós

A vós, que por aqui em letras passais
Meus amigos caminhantes, agradeço
A ternura, o carinho demais,
Palavras doces que não mereço

A vós, que deslizais em silêncio por cá
E me ledes, grata estou, igualmente,
Pelo tempo precioso dado, e para já,
Um terno abraço vos mando somente

A todos vós, sem excepção, com humildade
No coração, dorido, em sentido sofrimento,
Percursos da vida, desafios de estabilidade,
Envio Luz, Paz, Amor e um sorriso, no momento

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Em Ramos Nus

O canto que canto soando baixinho
Letra a letra em crescendo vindo
Decompondo a palavra
Palavra que me foi dada
Num renascer outonal

Canto tímido, dolente, espraiando-se no ar
Somente

Nota em nota unidas, alteradas
Puras sonoridades divagantes
Acalmias de tempo em águas passadas
Partituras inacabadas

Pequena ave azul em voo de rosa musical
Lentamente

Me estendo
E me vendo
Me entendo
Me alcanço
Em descanso
Me mirando
Achando
A letra, a palavra, a nota, o canto

Em ramos nus


sábado, janeiro 22, 2005

Lamento

Gostaria de gritar aos ventos a raiva que sinto
Gostaria de poder continuar livremente sorrindo
Como outrora
Que foram tempos de leveza alucinante
Infantilidade d’ instante
Pureza que não há agora

Gostaria que os céus tempestuosos bradassem
Gostaria que a silenciosa dor bem alto clamassem
Toda a verdade
Passada, acreditando cega nas gentes
Em mentes límpidas, envolventes
De falsidade

Gostaria que mares revoltosos limpassem a montanha
Gostaria que a palavra fácil perdesse a força tamanha
Que tem
Atitudes, desamor, falsa amizade, lamento
Despudor d’incauto momento
De que duvido do Bem

Mesmo assim, gostando tanto
Eu me olho sem espanto
E vejo nos caminhos trilhados
Os escombros, lodos, afastados.
Admirando o infinito
Hora que eu bendigo
Em serenidade me torno
Num sorriso me transformo

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Ó Gente!

Fito, me olho ao espelho
Miro, remiro, que vejo
Meditações em mim

Alguns seguindo caminhos
Alterados, nus, sozinhos
Em ambições sem fim

Ouvir-te a voz não desminto
Sonhares que por ti sinto
Ternuras perdidas nos ares

Mas olho o tempo que passa
Inclemente, na desgraça
Entre sóis, marés, luares

O espelho aclareando me diz
E o futuro me prediz
Olhando p'ra alem dos vales

Vês a Luz branca distante
Essa Luz que é constante
Que humaniza corações?

E clamo aos céus sentida
Silêncio estou esquecida
Enlaçada em ilusões

De outros que se perderam
Que quero crer esqueceram
Toda a beleza da vida

Iniciada. Cientes
Da fé de que são crentes
Olhares que a vida olvida

Oro aos deuses infinitos
Que tragam momentos bonitos
De Sóis e claridade
Riqueza d’alma, verdade
Que não se perca sozinho
Neste Mundo triste, mesquinho
D’informação que passa
E que as mentes atrasa
Em calculismos d’estares
Amorfos sentires d’amares

Meu sorriso serenamente
Passa por ti. Tenta. Sente.
Aclareia a tua mente.
Ó Gente!...

domingo, janeiro 16, 2005

Apelo para a Humanidade

Tivemos a tristeza de ver recentemente o Tsunami, causando uma grande destruição e vitimando um número inconcebível de pessoas em sete países da Ásia. Sabemos que esse tipo de facto é um acontecimento natural, porém havemos de analisar e acrescentar que a intensidade desse tsunami mostra-nos claramente que o desequilíbrio ambiental é, incontestavelmente, potencializador de forças naturais deste porte. Cabe a nós, definitivamente, uma reflexão séria sobre o assunto e buscarmos maneiras mais correctas de lidarmos com o espaço que vivemos, para que não sejamos nós os responsáveis por catástrofes desta natureza.

Nós blogueiros, propomos desde já, unirmo-nos em um alerta para a humanidade, e implantarmos cada um de nós, a nosso modo e em nosso ambiente, medidas práticas de mudanças!

É tempo de se falar abertamente. É tempo de se abordarem as questões em profundidade e não de forma restritiva. É tempo enfim, de se falar a sério sobre a questão ambiental e ecológica. Sobre a humanidade!

E com razão. É que cada vez mais se toma consciência de que o combate pela preservação, não tem fronteiras, não é regionalizável e de que a resposta ou é global ou não será resposta.

As chuvas ácidas, o efeito de estufa, a poluição dos rios e dos mares, a destruição das florestas, não têm azimute nem pátria, nem região. Ou se combatem a nível global ou ninguém se exime dos seus efeitos.

As pessoas ainda respiram. Mas por quanto tempo?

Os desertos ainda deixam que reverdejem alguns espaços estuantes de vida. Mas vão avançando sempre.

Ainda há manchas florestais não decepadas nem ardidas. Mas é cada vez mais grave o deficit florestal.

Ainda há saldos de crude por extrair, de urânio e cobre por desenterrar, de carvão e ferro para alimentar as grandes metalurgias do mundo. Mas à custa de sucessivas reduções de reservas naturais não renováveis.

Na sua singeleza, o caso é este:

Até agora temos assistido a um modelo de desenvolvimento que resolve as suas crises crescendo cada vez mais. Só que quanto mais se consome, mais apelo se faz à delapidação de recursos naturais finitos e não renováveis, o que vale por dizer que não é essa uma solução durável, mas ela mesma finita em si e no tempo que dura. Por outras palavras: é ela mesmo uma solução a prazo.

Significa isto que, ou arrepiamos caminho, ou a vida sobre a terra está condenada a durar apenas o que durar o consumo dos recursos naturais de que depende.

Não nos iludamos. A ciência não contém todas as respostas. Antes é portadora das mais dramáticas apreensões.

O que há de novo e preocupante nos dias de hoje, é um modelo de desenvolvimento meramente crescimentista – pior do que isso, cegamente crescimentista – que gasta o capital finito de preciosos recursos naturais não renováveis, que de relativamente escassos tendem a sê-lo absolutamente. E se podemos continuar a viver sem urânio, sem ferro, sem carvão e sem petróleo, não subsistiremos sem ar e sem água, para não ir além dos exemplos mais frisantes.

Daí a necessidade absoluta de uma resposta global. Tão só esta necessidade de globalização das respostas, dá-nos a real dimensão do problema e a medida das dificuldades das soluções. Lêem-se o Tratado de Roma, O Acto Único Europeu e mais recentemente as conclusões da Conferência de Quioto, do Rio de Janeiro e Joanesburgo, onde ficou bem patente a relutância dos países mais industrializados, particularmente dos Estados Unidos, em aceitar a redução do nível de emissões. Regista-se a falta de empenhamento ecológico e ambiental das comunidades internacionais e dos respectivos governos, que persistem nas teses neoliberais onde uma economia cega desumanizada e sem rosto acabará por nos conduzir para um beco sem saída.

Por outro lado todos temos sido incapazes de uma visão mais ampla e intemporal. Se houver ar puro até ao fim dos nossos dias, quem vier depois que se cuide!... e continuamos alegremente a esbanjar a água do cantil.

Será que o empresário que projectou a fábrica está psicológica ou culturalmente preparado para aceitar sem sofismas nem reservas as conclusões de uma avaliação séria do respectivo impacto ambiental?
Mesmo sem sacrificar os padrões de crescimento perverso a que temos ligados os nossos hábitos, há medidas a tomar que não se tomam, como por exemplo:


Levar até ao limite do seu relativo potencial o uso da energia solar e da energia eólica.

Levar até ao limite a preferência da energia hidráulica sobre a energia térmica.

Regressar à preferência dos adubos orgânicos sobre os adubos químicos.

Corrigir o excessivo uso dos pesticidas.

Travar enquanto é tempo a fúria do descartável, da embalagem de plástico, dos artigos de intencional duração.

Regressar ao domínio do transporte ferroviário sobre o rodoviário.

Repensar a dimensão irracional do transporte urbano em geral e do automóvel em particular.

Repensar, aliás, a loucura em que se está tornando o próprio fenómeno do urbanismo.

Reformular a concepção das cidades e das orlas costeiras

Dito de outro modo: a moda política tende a ser, um constante apelo às terapêuticas de crescimento pelo crescimento. È tarde demais para desconhecermos que, quando a produção cresce, as reservas naturais diminuem.

Há porém um fenómeno que nem sempre se associa ás preocupações da humanidade. Refiro-me à explosão demográfica.

Com mais ou menos rigor matemático, é sabido que a população cresce em progressão geométrica e os alimentos em progressão aritmética. Assim, em menos de meio século, a população do globo cresceu duas vezes e meia !...
Nos últimos dez anos, crescemos mil milhões!... Sem grande esforço mental, compreendemos aonde nos levará esta situação.

Se é de um homem mais sensato e responsável que se precisa, um homem que olhe amorosamente para este belo planeta que recebeu em excelentes condições de conservação e está metodicamente destruindo; de um homem que jure a si mesmo em cadeia com os seus semelhantes, fazer o que for preciso para que o ar permaneça respirável, que a água seja instrumento de vida e dela portadora, e os equilíbrios naturais retomem o ciclo da auto sustentação, empenhemo-nos desde já nessa tarefa, com persistência e determinação.


Se é a continuação da vida sobre a terra que está em causa, e em segunda linha a qualidade de vida, para quê perder mais tempo?...

Por isso apelamos a todos quantos se queiram associar a este movimento pela preservação Natureza, pela Paz e pelo desenvolvimento harmonioso da Humanidade, para subscreverem este Apelo.

Ao fazê-lo estamos a afirmar a nossa cidadania, enquanto pessoas livres, que olham com preocupação o futuro da Humanidade, o futuro dos nossos filhos!







Querida, como te adoro!

O teu porte é elegante
Esguio, olhar distante
Próprio dos sonhadores

O tempo teu inimigo
Não o é se estás comigo
Perdido em doces amores

Sussuro-te terna ao ouvido
Como te adoro, querido!
Cada vez que me abraças

Sorris e dizes baixinho
Meu terno amor, meu carinho
Encantos teus que não passam

Deslizando em meu corpo e mente
Em alvorecer ditoso, luzente
Momento eterno, sem fim

O fulgor brotando mansinho
Em sábias mãos, pele, no ninho
Enlevo de amante em mim

Palavras, letras, em poema
M’envias sem que a mão trema
Querida, como te adoro!

O tempo em tempo foi passando
Cada minuto, segundo, um encanto
De paixão, ardor, que devoro

De rubro escarlate vestindo
Sentes que vais diminuindo
Perdido no meu abraço

Não temos inconfidências
Meu Lápis, só as demências
Que serenamente enlaço.


sexta-feira, janeiro 14, 2005

Abrigo

Uma casa pequenita
De branco anda vestida
Tem olhos pretos
Imensos
Interioridades da vida
Vêde como é bonita

Caminhantes que lá chegam
Vindos de longe ou de perto
Um carinho encontram
Um abrigo
Um sorriso, um amigo
Um abraço mui terno

Casa modesta, singela
Interiores d’azuis pintados
Para a acalmia
Alegria
Dos caminhantes cansados
Perdidos no tempo que gela

De sonhos foi musicada
Em amor está colorida
Florida
Amena serenidade
De Paz, da verdade
Infinita, abraçada

Pára e entra, ó caminhante
Se tens sede, fome ou dor
Água e pão
Com ternura te darão
Afastando teu pendor
No entardecer, no Levante

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Por Ti Caminhante

Distribuo
Sem custo
Beijos
Meigos
Beijinhos
Carinhos
Ao caminhante que passa
Rogando
Implorando
Companhia
Gota de alegria
Em palavra transformada
Abro
Enlaço
Emoções
Corações
Sofridos
Sentidos
Esfomeados dum abraço
Me quedo
Com medo
Da quietude
(in)solicitude
Prevendo
Padecendo
Amarguras de ti, caminhante
Corro
Absorvo
Ilusões
Perdições
Cansadas
De vidas planas
Transformando
Me tornando
Sorrisos de serenidade

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Homem

Tu, louco, cego, acorda de vez!
Olha ao teu redor
O que vês?
A Natureza em sofrimento
Tudo aquilo que te deram
Te confiaram
De belo para cuidares
Destruído, alterado
Por tua ambição contaminado
Os filhos que geraste
Em lentas dores padecendo

Acorda, Homem, e vê!
Florestas destruídas
Dizimadas
Em clareiras de nadas
Como queres respirar?
Azuis mares poluídos
E os rios, revoltados
Onde o peixe não abunda
A terra donde nasceste
Seca, estéril, entristecida
Químicos que lhe puzeste
Já não floresce
Como outrora, lembras-te?

Vê, Homem, o sol a rodopiar
A lua mudando de lugar
Olha a desertificação da Terra
Que causaste
Insano tu provocaste
Ambicionando o poder
Fomentando rixas e guerra
Em gentes a ti iguais
As experiências nucleares
Fragmentando os ares
Que inalas mais e mais

Indignados estão os ventos
Em tempestades
Calamidades
Transformados
Pela tua ambição, inclemência
Triste demência
Homem, grita alto e diz
Do fundo do coração
Chega! Basta! Não!

sexta-feira, janeiro 07, 2005

O Trema

A conversa corria animada
Em temas vários fluindo
Palavras indo e vindo
Amizade iniciada

Voavam letras, sorrisos
Trocando conhecimentos
Leves, inocentes momentos
Movendo teclas e risos

Estrangeirismos deslizando
Certa altura, qual espanto
E para meu desencanto
O trema desaparecera voando

Louca, insana, investiguei
As teclas, os botões, as traves
Será que fora p’rós Algarves
P’rás férias que não lhe dei?

Encontrada a solução
Em breve foi esquecido
Por um “E” substituído.
Me dizem de lá, então:

“À janela batem, espera!”
“Com o frio Inverno de fora,
Corre, não descuides a demora
Abre a porta à Primavera.”

Quase desligando, saindo
Escrevem rápido, na hora
O teu trema chegou agora!
Um sonoro riso emitindo.


(À Ana, pela simpatia irradiada)

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Em Tempo...

Procuro a beleza, a candura
Palavras doces, a ternura
Entre os brancos espaços

Ávida percorro silêncios
Interiores profundos, imensos
Vogando em gotas d’água

Desbravo as letras do tempo
Correndo, pausando, a contento
De sóis brilhantes, luzentes

Desenho imaginações
Teço mantos de canções
Nuas nos ventos passados

Exploro árvores invernosas
De folhas caducas, chorosas
Buscando a luz dos abraços

Sigo trilhos e caminhos
Feitos de escolhos e ninhos
Encobrindo minha mágoa

Diviso rectas, espirais
Geometrias planas, iguais
Sentimentos condizentes

Olho para além do espelho
Que encontro, se só vejo
Vendas em olhos cerrados

Queria espalhar nos ares
O imenso amor dos mares
Que trago dentro de mim

Queria emitir serenidade
Paz doce, tranquilidade
No infinito sem fim

terça-feira, janeiro 04, 2005

Estádios

Desaparecida
Sumida
Entre os cantares de Inverno
Olhando
E não vendo
O desfolhar florido bem perto

Sem perturbações
Retomando a alegria
Apanágio do seu dia
Indagando
Procurando
Alcançáveis estádios azuis nos ares

Serenamente
Sem espanto
Turvas águas e orvalhares se indo
Partindo...
Ficando
Ave nua em brancas penugens
Timidamente treinando
Esvoaçares

E sorrindo...

domingo, janeiro 02, 2005

Cristal

Sensibilidade é uma rosa de cristal
Pura, fina, transparente
Seu canto é a semente
Que espalha pelos prados
Amanheceres orvalhados
Conscientes isoladores do Mal

Flor de leves mantos vestida
Transparências da Vida
Ilusória, frágil, protecção
Sonoridade transportada na mão
Do Homem que se faz forte
Abandonado à sua sorte

À brisa, ao Sol, estremecendo
Iniciadas fissuras contendo
Em pétalas esmaecida
Luz que trazes a Vida
A Paz, a tranquilidade
Caminhos serenos, a Verdade

O sorriso vive em mim
Em mares azuis sem fim…

quinta-feira, dezembro 30, 2004

A Romaria

Gaiata e trigueira, encontrei a Alegria
Perguntei-lhe para onde ia
Vou para além, para a romaria
Bailar, cantar, dançar até ser dia
Hoje é noite longa de folia

Lá no meio da fanfarra, encontrei a Animação
Perguntei-lhe o que levava na mão
Grinaldas de flores, um coração
Saltitante, ansioso por entrar na confusão
Espalhando pétalas de amores

Roliça e bem nutrida, estava a Felicidade
Que levas no regaço? Falsidade?...
Transporto a pura beleza da verdade
Doces sorrisos de paz, a tranquilidade
Que isola, afasta as dores

Pequenita, disfarçada, lá ia a Esperança
Que fazes aí, criança?
Trago mares, ventos, de bonança
Estrelados céus azuis de confiança
Prá gente que não se cansa

Gorducho, olhar vivaz passeava o Amor
Também aqui, meu candor?
A romaria pertence ao meu pendor
Espalho voos, sonhos, irisados de dor
Musicalidades ternas ao meu redor



A todos os que por aqui passam ou passaram,
desejo um 2005 cheiínho de Paz e Alegria
e vos mando o meu sorriso amigo.
Sejam Felizes!

quarta-feira, dezembro 29, 2004

O Rio

Correndo anos e anos a fio
Tumultuosas águas dum rio
Evitando
Ultrapassando
Limos, lodos, escolhos
Derrubadas árvores interrompendo caminhos
Contemporizando
Aguentando
Marés inconstantes, turbulências
Desnudando mentiras, impaciências
Irritações
Reais efusões
Liberdades de voares permitidos
De ave planando nos ares dos sonhos
Matas desbravando
Subtilmente mostrando
Do rio o plácido leito delineado
Sua rota para a foz o mar encontrando
Tudo em vão
Só confusão
Prepotência, conveniente cegueira da mente
Esfusiante, desdizente, seguindo em frente…
Com serenidade
O lema: a verdade
Criando novas, frágeis penas arrancadas
Fortalecendo, treinando asas cortadas
Rasantes voares
Passados olhares
Arriscando subir às estrelas, ao azul céu
Percorrendo serras e vales lá do alto
Mirando o voluntarioso rio que se perdeu

terça-feira, dezembro 28, 2004

Olhos

Olhos são Paz, são conforto
São o carinho do rosto
A alegria dos sentidos
Olhos que trago comigo
Olhos profundos, doridos
Preocupados, inconstantes
Que buscam cada instante
O desbravar inclemente
Do que há pra além da mente
Olhos meigos, sonhadores
Luminosos e distantes
Perdidos na cor das serras
Que animam e alegram
Sempre que eles regressam
Para o pão que dá as terras
Olhos frios, indiferentes
Calculistas, dementes
Elaborando equações
Na busca de soluções
Do porquê o verde é verde
Olhos mortiços, cansados
Da vida e dos seus fardos
Triste miséria que arrastam
Olhos indagantes, curiosos
Interrogativos, misteriosos
Olhos de olhos distantes
Fenecendo à míngua, à sede
A loucura dos amantes
Olhos ternos, piedosos
Carinhentos, amorosos
Olhos dulcificantes
Olhos secos, orvalhados
Ondas de fumo deitados
Correntes de ilusões
Quentes, frias, paixões
Olhos de todas as cores
Irisados de fulgores
Olhos plácidos, serenos
Sorridentes e amenos
Seguindo a tranquilidade
A paz, a luz, a verdade

sábado, dezembro 25, 2004

A Viagem

Em sussurros tu dizes ao meu ouvido
Com ternura, doces palavras de enlevo
Querida, meu amor, fica comigo
Nada temas nem receies, eu te levo

Me afagas com doçura, me transportas
Loucas viagens pelo azul dos mares
Pelo deserto onde no Nilo as comportas
Se abrem lentamente para passares

Me abraças forte, seguro e confiante
Teus lábios meus olhos, cabelos afagam
Deslizando, afastando, num instante
Dúvidas, temores, que se apagam

Karnak as portas do Templo se abrindo
Jorros de Luz, de Paz, tranquilidade
De mãos dadas, murmuras, sorrindo
Vamos, amor meu, com serenidade

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Lendo...

Lendo
Absorvo palavras lentamente
Que entendo
Fazem parte de mim
Plenamente
Letras de Amor sem fim

Possibilidade
Do voo pleno nos ares
Com verdade
Confiança
Ultrapassando sóis e mares
O infinito se alcança

Pensando
Nas forças da Natureza
Orientando
Rumos, rotas e trilhos
Serenidades na beleza
Luz, sorrisos, com mais brilhos

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Simplicidade

Com simplicidade te escrevo
Sentidas cartas de amor
Faço filmes, reinvento
Tudo para teu contento
Olvidando o pudor
Da concha em que me meto

Todo o dia em letras deslizo
Imaginando sonoridades
Partituras de sonatas
Notas perdidas, baratas
Que foram desperdiçadas
E aos Mestres eu bendigo

Os dias saem correndo
Seguindo águas e ares
Sóis brilhantes e luzentes
Poemas calmos, inclementes
Navegando pelos mares
Em frágil batel desfazendo

Teço rosas, lírios, em cetim
Treino asas, esvoaço
Bebo, saboreio, festividades
Ténues gotas em felicidades
Coisas que por ti faço
E enlaço mundos sem fim

Pinto doces deslizares
Em sonhos resplandescentes
Coso, ponteio, remendo
Letras, sorrisos, ao vento
Em serenidade vivendo
Luz amena de amares

sábado, dezembro 18, 2004

Mãos

Mãos serenas, caminhantes
Mãos fortes, dulcificantes
Percorrendo, descobrindo
Caminhos
Trilhos
Abrindo

Mãos estendidas, suplicantes
Mãos aguardando instantes
Da esmola da doçura
Da vida
Invivida
Em ternura

Mãos seguras, confortantes
Mãos alvas, brilhantes
Espalhando flocos de luz
Que lêem
Que sentem
O azul

Mãos rogantes, poderosas
Mãos transmutadas em rosas
Em pétalas se desflorando
Sumindo
Omitindo
Desdobrando

Mãos delicadas, elegantes
Mãos desenhando letras falantes
Em musicalidades, canções
De amor
De dor
Incompreensões

Mãos trémulas, impacientes
Mãos estimulantes das mentes
Imensidões estrelares
Marés
Em fés
De luares

Mãos verdejantes de prados
Mãos guitarras de fados
Acalmantes e gritantes
Em rotas
E notas
Instantes…

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Não

Não espero gratificações
Elogios, ou canções
Nem aparências de nadas
Muito mais do que alardas
Não procuro floreados
Nem versos inacabados
Nem tristes ou jocosos
Com sentimentos fogosos
Não sigo melancolias
Nem insanas folias
Ou mostras de cansaço
Nada disso eu abraço
Não tolero sentimentos
Desses perdidos nos ventos
Nem a inação que vejo
Que sinto e que prevejo
Como falsa, comovente
Da labuta insistente
Não indago o que não sentes
Se vejo, sinto que mentes
Não caminho a teu lado
Se te enches de enfado
E te perdes em dizeres
Para o vazio preencheres
Não te peço lealdade
Tão pouco fidelidade
Nem abraços ou ternura
Dizeres de pouca jura
E com tanto “não” me vou
O sorriso em mim ficou

Como Uma Marioneta

Sonhei com olhos amorfos parados
Entre gentes deslizantes
Olhos no palco fixantes
Como uma marioneta actuando
Sapateados
Uma criança abraçando
Ensinando
Batimentos cadenciados
Ela sorria, finalmente!

Despertar em cansaços intrigantes…

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Ilusões

Ilusões são pássaros voando pelo infinito azul
Ilusões são penas pendentes, rodopiando, cadentes, em luz
Ilusões são asas pairando, arco-íris sonhando
São verdes, rubras, multicolores
São tranquilidade, inconstância, fulgores
Pensamentos se soltando leves na sua cadência
Corridios, fugitivos na demência

Ilusões são sonantes musicalidades
De notas planando nos ares
Ilusões é sinfonia aberta completa
Rígida em sonoridades, incerta
Ilusões são pétalas, rosas e laços
Rezas, orações, abraços
Livros inacabados, poemas modificados
Portas abertas da Natureza
Divagantes na doçura, na beleza

Ilusões são olhos vivos e doces
Ilusões são faces ternas de amores
Ilusões são mãos afagantes, carinhosas
São sorrisos, águas plácidas, amorosas
Pó de estrelas, brancos luares
Sussurros, confidencialidades
Verdejantes montanhas e vales
Tortuosos rios, serenidades

Ilusões são láminas de sóis brilhantes
Ilusões são amanheceres orvalhantes
Ilusões são ocasos negros, escaldantes
São a leveza das plumas, instantes
Rectas, traços, sombreados
Em geometrias equilibrados
São folhas caídas, flocos de neve
Nuvens fugazes de tudo o que é breve

segunda-feira, dezembro 13, 2004

O Bicho Homem

Vagueando como apraz
Sabor do momento, tanto faz
Sorrindo em declarações
Amores de instantes, ilusões
Intensidade vivida uma a uma
Perdição de letras em penumbra
Sexuais verbalidades
Intensas ou inverdades
Uma e outra foi passando
Alma devassa explorando
Se passados ou presentes
Não me interessa, entendes
És homem, percebo, não aceito
Não lhe chames preconceito
Mas sim o saber da vida
Que voa, corre, corrida
Ficando no ar pairando
Gotas de nadas pensando
Indecisões dum encanto
Silêncio que se faz pranto
Cartas que não escreves
Promessas que não deves
Nem podias
Nem devias
Cada segundo lutando
Racionalizando
A vida e seus desdizeres
Perdidos em belos prazeres
Com começo mas sem fim
Nem para ti nem para mim
Melancolia, fulgor
Encanto e dor, dor
Alimentando possibilidades
Lonjuras de tempo nos ares
Perdida em meditações
Desabafos, conclusões
Eu amo a serenidade
Acalmia, paz, verdade
Infidelidade abomino
No sorriso que domino

domingo, dezembro 12, 2004

Sem Título

Não consigo, não consigo…
Não há palavras nem letras
O nada trago comigo
Me isolo
Vão consolo

Amanheceres entre orvalhos salgados

sábado, dezembro 11, 2004

O Protesto

Mares de letras atentas observam
Desenhadas em listrados
Quadriculados
Brancos e azuis papeis
Questionando que destino lhes darei

A imaginação voa sem rumo, sem norte

Ondeantes histórias inacabadas
Em amenas brisas
Perdidas
Esperando uma aragem mais forte
Um transporte para a vida, despertadas

Sem rumo, sem norte paira a imaginação

A invasão dos papeis começou
Exigindo, protestando
Reclamando
Em gritos surdos, onde estou
Retira o manto pendente, haja organização

E a imaginação desliza, no éter plana

Serenamente em incolores esgares
Sorrindo
Rumos e norte não abrindo
Apatia de amorfos caminhares
Que nem o frio vento do Norte abana

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Para quando se sentir só...

Peça ao céu um pouco de silêncio
e procure conversar com a noite.
Faça de cada ilusão uma promessa,
e pense que o que passou, passou.


Lá fora o ar pode estar pesado,
mas o desejo de seguir, de lutar, de amar,
é maior. Então liberte-se dos preconceitos
e saia por aí. Vá passear, ironize essa amargura
e faça dela uma sombra fértil de amor.

Não sinta receio de nada;
a vida é assim, tudo é um eterno recomeço...

Sempre existe um amanhã de saída,
que pode ser feito de boas aventuras.

Olhe-se no espelho e sorria, e coloque nesse
sorriso tudo de bom que você tem para dar,
as coisas que viu, ouviu, adorou e amou...
Afirme-se em um só pensamento de que seus
desejos sempre serão de alguma maneira
realizados; tudo é natural, tudo de
bom parte de dentro de você.


E lembre-se que em algum lugar existe
alguém que lembra de você, que sente saudades,
e te ama, e isso é muito bom.

Vibre com a lua,
mas contra a tempestade.
Fique feliz por ainda saber sorrir...
Vá! Levante a cabeça, coloque no rosto uma
expressão feliz, tudo vai lhe parecer mais fácil.
Notou?
Abra a janela e preste atenção
nos pássaros brancos
que voam no céu...

Tudo é paz, naturalidade e franqueza.
Por que esta melancolia? Lembre-se de um sonho, de
alguém que está sempre ao seu lado,
mesmo estando longe de você
e sinta como não é difícil ser feliz.


(enviado por Ruca www.rucasplace.blogs.sapo.pt)
Obrigado Ruca

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Ninho

Baixo… muito baixinho
No encaixo do ninho
Ouço musicalidades
Entendo sonoridades
Sinais de plumas voantes
Chuva de estrelas brilhantes

Lenta… mui lentamente
Pelo divagar da mente
Em sorrisos doces me entrego
Em sussuros que não nego
Alcançando o infinito
Belo, eterno, bendito

Terna… mui ternamente
Navego serenamente
Pelas correntes dos mares
Línguas de fogo solares
Escarpas, montes e vales
Percorrendo eternidades

Com doçura, com carinho
M’enrosco nas rosas do ninho
Em divagares coloridos
Em sentimentos sentidos
De paz e serenidades
Isolando-me dos males

Sorridentes despertares

terça-feira, dezembro 07, 2004

Sobre Espuma Florescente

Voo sobre espuma florescente
Em miscelânea de tempos
A barcaça que tomei
Fundiu-se imperceptivelmente
Nas estações, nos momentos
De melodias que cantei

Nua, subo um penhasco estéril
Solto minhas canções no ar
Sonoridade branda e débil
Auspiciosas do frenesim
D’Ícaro as brancas penas mirar
Puras ilusões de mim

Afrodite descalça caminha. Flores
E verde relva seus pés jorrando
Os rosados braços da Aurora
Os amores enlaçando
Que se perderam
Em dores
Míticos tempos d’outrora

Crus e frios deuses desafiando
Que riem da humana tristeza
Arautos da inspiração olvidando
Fiandeiros de vidas fios teceram
Omitindo a eterna beleza
Os sonhos, a paixão esqueceram

Serenamente
Deslizo
Com um sorriso
Sobre espuma florescente

sábado, dezembro 04, 2004

Ontem/Hoje

Ontem:
Emoções contraditórias, confusões
Agitares de gentes resolvendo
Realidades sanadas no dia
E obtendo
Cansaço em solidões
Desgastes que se previa

Hoje:
Tranquila noite de sono sereno
Ao longe vibrações ouvi, senti
Negras espumas em café despertando
Cheiro a Terra doce ameno
Gotículas de orvalho eu vi
A Luz tranquila da Natureza
O Sol a jorros pela janela entrando
Orgulhoso de beleza

E parti
Saí
Em Paz, o meu sorriso voltando…

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Imagem reflectida

"Imagina que o presente é apenas um reflexo do futuro.
Imagina que passamoa toda a nossa vida a olhar para um espelho
com o futuro nas nossas costas, vendo-o apenas no reflexo do que
está aqui e agora.

Alguns de nós começariam a acreditar que poderiam ver o futuro melhor
se se voltassem para trás e o olhassem directamente.

Mas se o fizessem, mesmo sem o saber, estariam a perder a chave da
perspectiva que tinham tido antes.

Porque uma coisa nunca seriam capazes de ver nele: eles próprios.

Ao voltar as costas ao espelho, tormar-se-iam um elemento do futuro
que os seu olhos nunca lograriam alcançar."

Nota: extraído de "A Regra de Quatro" que acabo de ler
Bom fim-de-semana para todos, meu amigos

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Tempo

Olhando através de um centímetro de fresta da janela reparo que lá fora não chove ainda.

Telhados luzidios escorrendo gotas, árvores desnudas lustrosas erguem seus braços esguios para o infinito em preces indicando caminhos.

A buganvília lutando contras as intempéries mantém teimosa os cachos de flores secando uma a uma enquanto o azevinho viçoso em colorações de verdes mostra orgulhoso suas pintas vermelhas.

Tempo soturno, alagado na serenidade da Aurora que despontou sem o brilho do Sol.

Os pássaros, rolas bravas e melros não me vieram visitar enrolados no aconchego dos ninhos. Só as gaivotas pairando nos céus. Prenúncio de tempestade.

Momentos de silêncio, tranquilidade, de quase paz, rodeante.
A Mente voa leve pelos ares sem sonhos em meditações de mim.
Encontro linhas suspensas paralelas, umas com bifurcações deslocantes cientes da inteligente luminosidade que emitem, outras brilhantes de mãos de sonhos voantes no éter.
Seguindo lenta e cautelosamente seus trajectos não olhando o abismo negro envolvente que pressinto, encontro secantes e paro suspensa nos ares analizando.

Retorno deixando que o tempo em Tempo transforme.

terça-feira, novembro 30, 2004

Respondendo...

Se te quero, te desejo?
Plena em ti me revejo
Meu amor, meu doce enlevo
Meu divagar no vento
Parte de mim, meu sossego
Meu pairar cantante nos ares
Meu afago
Minha pele
De cantantes despertares
Minha lonjura
Tormento
Lágrima oculta
Despedida
Na noite tornada escura
Meu anseio de Ventura
Minha canção dolente
Minha luz, minha aurora
Despertando sorridente
Terna forma espiralante
Quadricular, secante
Geometrias perdidas
Simbologias d’outrora
Morango rubro, meu mel
De leve trago a fel
Na hora das despedidas
Meu céu azul, meu luar
Meu voo leve, sereno
Num Outono mui ameno
Chuva d’estrelas, meu mar
Oásis o deserto salvando
Sede que matas a sede
Que em mim tu te perdeste
Eu em ti unificando
Minha fidelidade louca
Em silenciosos falares
Sussuros e murmurares
Cega, surda e mouca
A convites, distracções
Enlevos e seduções
Vivendo p’ra ti somente
Meditando sorridente


segunda-feira, novembro 29, 2004

Eremita

Rasgando roupas e mantos
Me cubro de singelos cantos
Abraçando o momento
Buscando a Palavra no vento
O silêncio

Escalando íngremes encostas
Admirando a Natureza
Esplendorosa
Brilhante
Que tu gostas
Eremita errante

Procurando a Luz em meditação
Imóvel me quedo
Em sossego
Profunda introspecção
E voo pairando
Música no éter soando
Sem temor nem medo

Lavro a terra, faço o pão
Recolho folhas silvestres
Bebo água que mais não
São
Gotas de orvalho giestas
Intemporalidade
Acalmia da verdade
No saber das florestas

Casulo

Poemas não faço sigo escrevendo
Dentro do meu casulo
Entre os dedos espreitando a medo
Caixa das misérias do mundo
Que entram
Esventram
Terrores
Gláudio de palrantes doutores

Guerras, ódios, prepotência
Tempos sem cor amorfos
Dolorosa sequência
De dias tortos
Gentes incolores
Frieza nas dores
Perdida está a clemência
Não olho, recuso
M’enrolando no casulo

Rios rubros, canibais
Encruzilhadas torpes da mente
Desfeitas em espirais
Ceifando trajectos
Projectos
Invividas vidas, demente
Rasgo sedas e ares
Do casulo saio enfrentando mares

domingo, novembro 28, 2004

Não Temo

Não temo
Enfrentar o dia-a-dia
A rotina, com alegria
Sincronização de mim

Não temo
Percursos delineados
Em consciência meditados
Racionalizações outrossim

Não temo
Olhar em frente seguir
Alheamentos sentir
Encontros introspectivos

Não temo
O cinza negro anoitecer
Dias brancos percorrer
Desencontro dos sentidos

Não temo
Climatéricas alterações
Análise fria de ilusões
Imprudências da Mente

Não temo
Vaguear solitária no Tempo
Descobertas de momento
Interioridades somente

Nos sorrisos da certeza
Caminho impávida e serena

sexta-feira, novembro 26, 2004

Afinação

Notas soltas tresloucadas
Claves, breves e solfejos
Mescladas
Irisadas de desejos
Vagueiam saltando da pauta
Seguem bemóis e sustenidos
Andando no ar perdidos

Cada um canta seu canto
Em nuvens de algodão
Para pasmo e espanto
De quem
Por bem
Assiste à confusão

Libertam agudos e graves
Soltam sonhos melancólicos
Águas revoltas de mares
Escalam montanhas
Descem vales
Em busca dos tons bucólicos

Entre palmeiras e tâmaras
Dos oásis do deserto
Repousam em belas câmaras
Finalmente
Serenamente
Compassadas
Musicadas
Calmas
Ledas do incerto

quinta-feira, novembro 25, 2004

Curtas

Acordei
Me levantei
Entre palmeirais
E areais
Na foz
Ouvindo a voz
Do meu rio
Sorrio
Percorro
Não corro
Sonhares
E mares
D’acalmia
Não devia
Turbulência
Demência
Realidade
Boa vontade
Ficção
Talvez não
Questiono
E retorno
À esperança
Na lembrança
De um dia
Quem diria…

quarta-feira, novembro 24, 2004

O Imprevisto

Sem pressões
Nem compaixões
Segui absorta voando
Pelo tempo em lonjura tornado
Partindo e regressando
De quando em quando

O incógnito ser humano no casulo enclausurado

Sem temores
Nem sentidas dores
O desconhecido aguardando
Ausente de mim, do rodeante, das gentes
Mirantes indiferentes

A caixa imóvel num canto do nada, esperando

Vi-te
Sorri-te
Contido calor d’um abraço
Em mim sonoros falares brotaram
Entre sorrisos, espantos, jorraram

A ave sem asas voava, sem amarras, sem um laço

Ternos olhares
Doces tocares
Química atracção
Instantânea, inconsciente, deslizante
Em segundos, horas, num instante

A música da pauta saiu, leve, tornada libertação

terça-feira, novembro 23, 2004

Doce Canto

Canto o amor, a dita, a ventura
Caminhante
Inconstante
Em seus passos de vento
Caixa de sonhos, lonjura
Do tempo, que em tempos, foi tempo

Canto o fogo, a paixão ardente
Desfolhados
Incontrolados
Em revoltas marés voantes
Desconexos de demência premente
Peles, olores, desejos, cantantes

Canto o azul, o sol, os luares
As estrelas
Como belas
Na serenidade, na paz
Caminhantes de vagares
Brilho plácido, ameno, nos traz

Canto às letras do poeta sonhador
Que voa
Entoa
Com mui terna sabedoria
Musas, cores, luzes, sem dor
Do entardecer, da noite, faz dia

Cantando meu caminho sigo
Em deslizares
D’amares
A vida, a alegria, a doçura
Sorrisos francos que bendigo
Fidelidade, dádiva doce, se perdura

domingo, novembro 21, 2004

La Declaración de Amor

Más aún que en tu clara primavera
eres ahora bella, amada mía:
en tu espléndido otoño, se diría
madura en ti la humanidad entera.

Amo tu cuerpo hermoso y tu alma austera,
tu sien surcada de sabiduría,
y te amo al saber tu compañia
para todo y en todo compañera.

Así te quiero, mar de aguas tranquilas,
con tu diáfano ayer, y en las pupilas
la luz de los crepúsculos dorados.

!Manos dichosas con que compartimos
nuestro pan amoroso y los racimos
a las viñas celestes arrancados!

Roberto Cabral del Hoyo
San Angel, Agosto 1993


(Postado por Morales Vilanova, no seu blog, em 20 do corrente)

Meu Cão

O Homem dispõe seus caminhos
seus passos, rumos e rotas
perdido em ilusões
sonhos, voos
maldições
tristezas
e sem certezas
do que pode acontecer

A Natureza é mais forte
bela, dura, imprevisível
portadora de surpresas
dura, crua e vil
indiferente
das solidões
do amparo, do braço amigo
muda, cega, não quer ver

Perde o Homem, perde tudo
árvores, plantas e flores
animal d'estimação
guarda querido
nas dores
da perda
da solidão
parte de mim vai contigo
na morte
sem sorte
no coração

E choro, por mim, por ti, meu cão

sábado, novembro 20, 2004

Despertar...

Desenhando traços e letras
Sobre brancos quadriculados
Contornando sombreando
Geometrias
Simbologias
Seguindo riscos traçados

Animais impacientes aguardam lá fora
O pão deles de cada dia

Seguindo o lápis distraído
Que percorre curvas espirais
Em movimentos corridos
Sem andamentos
Musicais
Entre silêncios cortantes fluidos

Um rouxinol passa trinante…

Vendo na cegueira existente
O negro ocupando a brancura
Ligeiros densos tracejares
Quadriculares
Sem pensares
Alva etérea côr não mais pura

Despertar para um dia brilhante…

sexta-feira, novembro 19, 2004

A Voz do Pássaro Errante

Longe veio do nada existente
Caminhando entre núvens escaldantes
Jorrando labaredas de gelo
Derretido
Convencido
O caminhante
Envolto em musicalidades falantes
A voz do pássaro errante

Abrindo portas dos céus
Frinchas luminosidades pálidas
Espreitava
E nadava
Em rios secos curso constante
Coberto de densos véus
Desnudado ser em sonho belo
Vozear de pássaro errante

Olhar atentamente disperso
Perdido no vento forte e brando
Nos areais da mente
Não sente
Desmente
Realidade nua crua seu canto
Passo vacilante e certo
Coloridos flocos de ar deslizante

Na voz do pássaro errante…

quinta-feira, novembro 18, 2004

Amor

Meu encanto, meu doce enlevo
Meu raiar d’aurora, meu despertar
Meu entardecer sussurrante
Anoitecer escaldante
Que cada frase eu bebo
E não consigo olvidar

Perdida em mares revoltos
Em mui ternas calmarias
Desejos alucinantes
Em noites claras e dias
Sentidos loucos e soltos
Buscando-me em ti, nos dias

Vesti-me com manto brilhante
Da luz do sol, das estrelas
Do verde ondear da serrania
Procurei, demente, incessante
Nas cores de músicas belas
Estavas lá? Não, não sentia

Perdição minha, sonho, doçura
Encantamento, meigo amor
Te suplico, peço e rezo
Que apagues esta ternura
Esta chama, fogo, ardor
Do coração que t’entrego

terça-feira, novembro 16, 2004

O Vento lá fora

A noite me invadiu lentamente
Com o denso peso do dia

Entre penas num colchão de pedra deitada
Repousei meu corpo cansado
Olhando o vácuo
Na imobilidade do pensamento

O vento lá fora em sibilantes cantares

O livro dos sonhos pousado
Me mirando
Espantado

Silêncio inócuo

Me desliguei na noite entre acordares
Focando o tempo, inconsciente
Numa acalmia
Vivendo instantes de nada.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Divagações em Letras

Letras dançantes pairando
no espaço, sorriem…
Alegres, saltitam
entre teclas brancas e negras
As cordas do piano esticam
a sonoridade clara disformando
e criando, enigmas, às cegas

Construindo jogos de palavras
Meros dizeres com som,
sem senso
Condutoras incautas de sonhares
Indiferentes ao outrem
que não buscam, insensíveis
a lucidez, na linearidade interpretada
Sentida
Somo suas

Poetanto em palavras difusas
agradáveis aos sonhos
às ilusões
de quem passa na procura
da esperança, de voos
irrealizáveis,em candura

Olho-as e não entendo!
Frases com tudo de nadas
plenas dum silêncio profundo
dum vaguear pelo espaço
Para delícia do poeta.
De quem ilusoriamente as lê

E meu caminho percorro
em silêncio, em acalmia
aguardando cada momento
Sem pressa, sem turbulência
que chegue a clarividência
nessas letras distorcidas
E serenamente, sorrio



domingo, novembro 14, 2004

O Sonho

Preciso de ti
Como rio sôfrego a água bebendo
Como montanha o verde das árvores sorvendo
Como no deserto a areia fina aguarda o vento

De ti preciso
Como sol rubro num anoitecer nascendo
Como o mar revolto em correntes e luares
Como a doçura da ave pairando nos ares

Preciso de ti
Como o silêncio da noite falante
Como uma estrela tímida brilhante
Como o raiar d’aurora, num instante

De ti preciso
Como a palavra em letras perdida
Como as cores dispersas em branco
Como musicalidades que não canto

Preciso de ti
Como o estender da mão do mendigo
Como o achar num tempo perdido
Como o voo embriagado, medonho
Preciso, sim, de ti, meu sonho

sábado, novembro 13, 2004

Canto

O canto da sereia não canto
Minha voz perdeu o timbre
Canto o amor, a alegria
No encanecer do dia
Que desliza e no entanto
Canto canção mui breve

Entre notas soltas e solfejos
Afino, desafino, percorro
Escalas musicais incompletas
Breves, curtas, incertas
Deslizantes no éter e vejo
Mutantes notas em clave

Canto à água, ao mar, ao rio
Seguidores em cadência
Ao sol, à terra e ao ar
Que, com seu ondular
Levitam minha demência
Em luminosidades de brio

Canção em lâminas de fogo
Meiga, terna, ardente
O infinito enlaçando
Em profundidades inalando
O caminho que percorro
Num sorriso consciente

sexta-feira, novembro 12, 2004

Escrevo...

Escrevo, sem palavras nem letras
Em sonhos de Fogo e calor em labaredas
Transformadas
Produzindo um invisível ondulante vento
Levitando-me em carinhoso momento
Em ledas
E fulgurosas madrugadas

Escrevo, sem letras nem palavras
Na Água límpida e clara mergulhada
Transmutada
Em ondina de rio, catarata ou lago
Meu manto espelhado eu afago
Encantada
Entoo a música que te trago

Escrevo, sem palavras nem letras
Formas espiraladas de azul no Ar
A planar…
Desenhos de suaves voos imaginados
Perdições de amores desejados
De te achar
Em maviosas cores de tons irisados

Escrevo, sem letras nem palavras
Da Terra, a força física, a paixão, o sentir
O ideal
Pelo terno beija-flor simbolizado
Esvoaçando no doce mel deleitado
A sorrir…
Interacção da natureza dual

quarta-feira, novembro 10, 2004

Dialogando

Vêde as horas, minha mãe
Tarde se faz, tenho d'ir
Tanto caminho a percorrer
Tantas letras para ler
Tenho mesmo que partir

Pressa? P'ra quê? O mar não sai do lugar
Brisa amena sopra, o sol continua a brilhar

Inclemente, nos dedos desliza a vida
Alteram-se marés e correntes
Rodopia o astro rei nos horizontes
Lâminas de fogo lançando
Lembrando
A mudança já sentida

As cores do arco-íris? A ternura dum sorriso?
Os sonhos do poeta? O voo no tempo contigo?

Minha mãe, assim eu corro...
As pontas d'ilusões, sonhos, agarro
Com toda a força restante
Num silêncio inquietante...
O cru voo do tempo seguro
Num meigo sorriso brilhante
Do poeta adormecido

terça-feira, novembro 09, 2004

A Comédia de estar...

A comédia de estar cronicamente atrasada para a minha própria vida estava a dar cabo de mim.

"Qual é a mais pequena harmonia dentro de uma grande vitória?"

Tudo em Pitágoras são harmonias. A astronomia, a virtude, a matemática...
Grande vitória pode significar o que se quizer, e a mais pequena harmonia tem muito menos significados concretos.

Utopia de Thomas Moore:
Os seus habitantes têm dois jogos parecidos com o xadrez.
O primeiro é uma espécie de concurso de aritméticas no qual certos números ganham a outros.
O segundo é uma batalha campal entre virtudes e vícios, que ilustra de forma brilhante como é que os vícios tendem a entrar em conflito uns com os outros, mas se combinam contra as virtudes. Mostra o que determina, por fim, a vitória de um lado ou de outro.

domingo, novembro 07, 2004

Teu Caminho

Em ti eu morro
Por ti renasço
em ternas formas de cristal
na seda de flores no ar
pairando em brisas leves...
leves...

A Serenidade me encontra
me leva, me transmuta
em cores plácidas
em deslizantes meigos voos
planando nas asas da Mente
lá alto...
bem alto...

De Paz me cubro e enlaço
revejo a Luz e divago
Encantamentos de mim
para ti em carinho levado
Teu caminho percorro
atenta...
serenamente...

sábado, novembro 06, 2004

Apelo

Oh Morte, porque não vens
se morro em ti todos os dias?
Morro como os pássaroa voantes
Morro sob sóis estrelados
em mantos de azul
Morro na vida invivida
Morro!...

Luz que aclareia meus sonhos
esvaiu-se
Deambulo na escuridão
Só, em passos perdidos

O adormecer perpétuo!
A acalmia silenciosa do nada!
Vos desejo, tanto, tanto!

Sentimento de abandono
persegue-me
cada minuto, cada instante
perdida em gotas tranlúcidas
deslizantes de mim

E oro aos deuses
às divindades supremas
que a Paz me traga
ao meu corpo amorfo
dormindo no vácuo do nada.

Clausura

Marcas de ti ficaram
Permanecem
Em conturbada clausura
De mortes
Em noites sós
Anseios
Colo que m' afaga
Sem promessas
Sem nadas
Só... Depois...
Perdição no Tempo
Lonjuras
Em apelos
Voo como louca
Insanidade
Talvez!
Imagens
No espelho reflectidas
No Além
Unidade de dois
Divago
Confio
Na lucidez perdida
Da Mente

Formas

Formas pairando sobre incautos sonhos
De pirilampos luzentes em manto azul
De tempestades, mares revoltos
Verdejantes campos
Brancas montanhas

Nos olhos da águia, do condor voando
Pelo Infinito belo, inatingível
Formas de pujante esperança e luz
No fundo do desconhecido mergulhando
Entre regressares e partires

Na leveza da miragem em áridos desertos
Buscando, sequiosas, a água dos deuses
Da vida eterna, do manã ansiado
Em pinceladas de musicalidades coloridas
Sentidas na efemeridade dos sonhos

Formas deslizantes, resvalando de mansinho
Mirando, incrédulas, a luminosidade
De trajectos, rotas, caminhos, mas tentam
Um voo nas inseguras asas pela brisa
Leve, macia, com doçura e carinho
Esquecimento do tempo, da realidade
Dura e crua, sorvendo ávidas a vida

Formas em acordes nostálgicos
Descrentes da fria análise existente
Acordam! Regressam do encanto do planar
O retorno à custosa existência!…
Admiram a luz esplendorosa lá longe
Orientando timidamente seus passos
E sorrindo…

sexta-feira, novembro 05, 2004

Poema de Hilda Hilst

Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.

Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas.

Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas.
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.

Porque assim é preciso
Para que tu vivas.

quinta-feira, novembro 04, 2004

O Indigente

(Badeado num caso real)

A rotina diária já fazia parte da sua vida há longos anos.
Seu passado, ninguém conhecia.
Veio de não sei onde, percorria a cidade a pé, fizesse chuva ou sol, em dias de tempestade ou estiais.
Seu ligeiro coxear, de olhar bondoso mas triste, chamava a atenção das gentes que com ele se cruzavam.
Meias e sapatos velhos, semi-desfeitos pelo calcorrear de ruas e vielas, roupas puídas, descoloradas pelo tempo, remendadas, de velho e deformado chapéu na cabeça, lá ia o pobre homem, coxeando, andar certo e vagaroso pelo peso da idade.
No meio da sua pobreza, um brio se notava na sua gasta e escassa roupa, sempre limpa.
Irradiando simpatia, educação e bondade, tinha seus lugares certos, durante anos a fio, onde o encontrávamos: nas soleiras das portas comendo uma malguita de sopa, um pão, uma peça de fruta tocada, que as almas caridosas lhe davam.
Humildemente dizia já ter tido posses, ter vivido bem, mas os azares da vida o tinham levado àquela situação.
Quando lhe perguntavam se não tinha filhos ou algum familiar que o socorresse, respondia de feição triste: Ninguém! Já todos se foram!...
Metia dó!
As donas de casa, onde mendigava, condoíam-se da pobre criatura.
Até que um dia, estando ele a saborear uma sopita caridosa num canto duma escada, chega uma peixeira, de cabaz à cabeça, dá-lhe uma fugaz mirada e diz à dona da casa:
- Não sei quanto dinheiro a senhora tem!, mas aquele homem, ali sentado, tem muito mais que a senhora!

quarta-feira, novembro 03, 2004

Rir

Rir do ontem, do talvez
Rir por tudo e do nada
Rir em sonhos acordada
Daquilo que não se fez

Rir na noite e de dia
Rir do antes no depois
Rir de tudo que não via
Vogando em ilusões

Rir do directo indirecto
Rir de palavras traídas
Rir das névoas trazidas
Quando tudo era incerto

Rir em belos sóis azuis
Rir em marés encontrada
Rir de ahs, ohs e uis
De poética encapotada

Rir de sábios perderes
Rir do certo imprevisto
Rir daquilo que eu visto
Em crus e parcos haveres

Rir da dúvida na certeza
Rir do claro obscuro
Rir com toda a firmeza
Respiro, vivo, perduro

Rir da dor na alegria
Assim me vou, já é dia!..

segunda-feira, novembro 01, 2004

Trilhos

Quero
Seguir meus caminhos entre raiares de Luz
Quero
Sentir a esperança nos corações oprimidos
Quero
Libertar as Almas de torturas infindas
Quero, sempre, mais, muito mais...

Desejo
O regresso da Paz às Mentes humanas
Desejo
A alegria dum anoitecer em Azul
Desejo
Que a água revolta dos mares em lago se tranforme
Desejo, oh, como eu desejo!...

Penso
Tornar amarguras em sonhos voantes
Penso
Percorrer rudes trilhos com paz e amor
Penso
Na dádiva dum sorriso, antes temor
Penso, e como penso!...

Anseio
Ver a perfeição no esplendor do Infinito
Anseio
Que as pérolas caídas num sorrir se transformem
Anseio
A luminosidade do Sol nas mentes dispersas
Sim, como anseio!...

Tentarei
Que caminhos obscuros, densos, se dispersem no éter
Tentarei
Que aves mutiladas voltem a voar
Tentarei
Que o Azul, a Luz, o Sol, o Templo
Voltem de novo, e sempre, a brilhar

sexta-feira, outubro 29, 2004

A Metáfora do Dia

Metáfora do dia:

Portugal é um pacote de arroz com bagos desiguais.

Um quinto da população come baguinhos, a classe
média come bagos e depois há uma pequena minoria
que são «Os amigos do Bagão».

(Texto enviado por um amigo de Lisboa)