terça-feira, novembro 08, 2005

Folhas de Outono





Nas folhas rubras do Outono
Contigo teço meu leito
E voo no sonho
Dos brilhos desnudos
Na voz do silêncio
Plano… revivo
Na missiva do correio
Em folhas amarelecidas
Aromas há não se apagam

Passa a hora passa o dia
Por este país doente
Romaria que o povo abraça.
Que fazer por quem não sente
Falas plenas de desgraça
E que incauto sorridente
Os braços pende e acata?

Mesclo tudo no cansaço
Vontade que se faz tarde
Se te espero te desejo
Âmago rubro meu peito
Outono desfeito
Folhas caídas
Muros de amor
Ternura
Saudade

quinta-feira, novembro 03, 2005

Tempo



Uns se encobrem de folhas secas
Outros abrem a escuridão do dia
Tudo acontece nos momentos
vestidos de fantasia

Assim se passa o tempo escasso
Dos rasgos esboço meu traço
nos farrapos omitidos
a que assisto

Sofro pelas dores alheias
tão inteiras de cinzas
que me morro
no meio delas

E se prevejo
cada passo, cada rasgo
nos ténues fios que sinto
me enrolo
em novelo me torno
e hiberno na caixa
do tempo sem tempo
deixando a porta aberta
do sorriso
para o amigo
que passa

sexta-feira, outubro 21, 2005

Tapete de Folhas







Sabes, ontem estive a rever memórias ou lembranças,
como as queiras chamar. Com espanto descobri que tudo
se vai guardando, desde pregos e parafusos até intensos
abraços de mar.
Fui levantando véus a paralelas, assimetrias simétricas,
aos doces cantos da alma. Vi passar flocos de estrelas,
pontes suspensas, verdades e inverdades camufladas
em letras.
Muita ternura deslizou entre as margens de orvalhos, nos
trilhos de barcos enfrentando tempestades, nas pradarias
verdejantes de luares.
Tanto, mas tanto foi destapado na melodia das vozes correndo
em colorações e brilhos, sempre presentes na serenidade
do sorriso.
Sabes, ontem, a poesia adormeceu o Outono
sobre um tapete de folhas doces…



Há uma estrada coberta de Outono
Um tapete de folhas esbatido
Recosto intemporal do poeta
Que segue a voz do silêncio
Serena... serenamente
Desfolhando sorrisos

domingo, outubro 16, 2005

Vagas de Zinco











Por vezes há vagas tempestuosas,
Revoltadas que nos entram
Pelas janelas duplicadas,
Muradas, em espuma
De zinco ardente


Surgem do nada, na corrente
Gelada, em misturas de vento.

Sempre me transtornaram as águas
Que sobem imagens sombrias
Personificadas de brisa
E me cravam silêncios
Partindo muros
Correntes

Nessas vezes aguardo serena
O renascer da clarividência
Das vagas que em espuma
De zinco quente
Transformaram noites e dias
Até que em brilho unam
Almas e mentes

sexta-feira, outubro 14, 2005

Mais...que mais.....









Não vens quando te espero
Tão pouco a sombra de ti
Me desce um desgosto infindo
Sobre os mares de carinho
Que previa e que não vi
(Mais p’ra ti que mais p’ra mim)

Sussurras ao meu ouvido
Como te adoro querida
Eu fico lerda, sem jeito
Me estremece no peito
O que devia e não fiz
(Mais p’ra mim que mais p’ra ti)

Quando meus olhos afagas
E me deslizas em letras
Nos sorrisos de ternura
Jorram palavras nuas
Qual cascata leve, amena
(Mais p’ra mim que mais p’ra ti)

Se de força eu te cubro
Na hora difícil do dia
Te enrolas nos meus braços
Seguras as pontas dos laços
Abrigo, porto seguro
No tempo do quem diria
(Mais p’ra ti que mais p’ra mim)

E neste empate técnico
Que o acaso teceu
A vida passa sem árbitro
E corre…corre…correu…

segunda-feira, outubro 10, 2005

Etéreo





Despi-me dentro peito

Neste sentir de mim

Vesti a mente a teu jeito

E as folhas de Outono caídas

Dançaram rubras na brisa

Qual beija-flor

Etéreo

Sem fim

sábado, outubro 08, 2005

As Gatas


















Pelo fim-de-semana
se passeiam as gatas
no meu quintal

Vejo-as sair, felpudas,
académicas, lãzudas,
todas tão diferentes,
no alvorecer de cada dia
que o fulgor dos anos trinta
em corpo habita
e consente

Como entraram? Não sei!
Talvez garridas, floridas,
inconscientes,
na calada da noite
permitida,
com suas patas de veludo
e garras que sabem tudo
por quem mais sabe e vive
urgente



Poema in "Transparência de Ser"

quinta-feira, outubro 06, 2005

Pelo Silêncio da Noite

Partirei pela noite silenciosa
Arrastando os passos cansados

As vozes que me retardam
Nos ecos dos penhascos
De todas o tudo amarei
Na gota de chuva ou orvalho
No despertar de cada estação
Pujante, no abrigo da paragem
Das mãos que afagam o instante
De aragem da estrada

Da canção as amarras soltarei
Para que cada deus renasça
Entre a relva verde dos prados
E o azul em mim espelhado

Pelo silêncio da noite voltarei
Quando ouvir o canto da cigarra

sábado, outubro 01, 2005

Afagos

I

A chuva brotou nos sulcos de um mar
Salgado… sereno
A princípio miudinha, orvalhada
Afagos na areia fina
Que o longe avistava…
A noite se abriu em rasgos
Luminosa
E clara

II

Te canto, no infinito te cantarei
Ó sol, ó vento, ó chuva
Que me afagas
No âmago do acaso
Na corrente da essência
Da paz encontrada
E que serenamente
Na cor doce do sorriso
Enlaço
Sabendo-te me saberei
Em cada renascer silente
De asas

III

Me percorres na demora
Do deus que em ti espelha
Luas sóis da memória
No fundo do teu silêncio
Ternos são os afagos
Do vento
Que em traços
De brisa
Me beija

segunda-feira, setembro 26, 2005

Pinceladas

Não sei se leve a tela e as tintas
E no areal doirado e vasto
Te pinte a cor do sorriso

Não sei se mergulhe em tuas letras
E com a sua intensa beleza
Deslace os nós que sinto

Não sei se desenhe pontos traços
E preencha os espaços
De pirilampos infindos

Mas sei que à noite há fortes passos
Com que o sol reforça os laços
De luar no seu caminho

Que os mares se cobrem d'estrelas
Voando em danças serenas
No fio do paraíso

quarta-feira, setembro 21, 2005

Dias Há...

Há dias que se repetem
No ontem de um amanhã
São dias longos, espessos
Não deslaçando a hora
Que no fio do cabelo
Tão moroso e cinzento
Em novelos densos está

Outros porém são vivazes
Plenos de luz e de cores
Qu’em seus bailados eternos
Lançam flores largam véus
São fortes e mui capazes
Entre sorrisos serenos
De cantos que o mundo sente

Dias há de palha verde
Exposta nua aos céus

terça-feira, setembro 20, 2005

Luar de Paz Eterna

Pedaços são veste tuas
Longo verde da matéria
Emoções de noites nuas
Insones palmos de terra
Essência de sol e luz
Numa morte renascida
Em sonhos e descobertas

Breve tão breve o dia
Omitido...Não o esquece
A poesia lendo o poeta
Num luar de paz
Eterna

sábado, setembro 17, 2005

Nesta Praia...

Esta praia que afagas
Com teus olhos doces d’água
Em iluminuras mil
Te sabe a cada instante
De ausência e saudade
E canta só para ti

Cada rocha é um suspiro
Cada areia um pão de milho
A concha a sede que matas.
Das algas se tece o leito
E dos sussurros do vento
Se desdobra cada beijo
Em doces nuvens de prata

Dançam flores a contento
Entre as borbulhas de sal.
O sol percorre a estrada
Neste entardecer ameno
Num rubor musical
Nesta praia que enlaças
Gaivota nas tuas asas

terça-feira, setembro 13, 2005

Nesta Alvorada

Desdobram-se brilhos essências
Alfazema, rosa, jasmim
Nos braços da alvorada
Espreitando os fios d’água
Das flores do meu jardim

Tudo é paz tudo é clemência
Incenso, alecrim, manjerico
No espaço suave que inspiro
Ondas que teias lançam
E dançam…
Sorrisos

M’ espanto vendo que chegam
Chocolate e a canela
Em rubros azuis de mar
Sensações, um sonho apenas
Nesta alvorada amena
Do meu doce despertar

sábado, setembro 10, 2005

Poema Breve

Breve chega o tempo
Que o mar azul mais era
Relembrando, esquecendo
Quando, quanto momento
Em profunda descoberta

Breve foi quem diz que era

domingo, setembro 04, 2005

Foram Tempos...

Sabias! Tu sabias
Que nada daria certo
Quando colocasses o verbo
No passado, imperfeito

Sabias, sim! Tu sabias
Que as figuras de retórica
Usadas hora após hora
São só dizeres de vento

Mas percebias
Que o povo incauto e sereno
Te seguiria correndo
Onde quer que tu passasses

Ora continuaste
Correndo o mesmo caminho
Por entre a fácil palavra
Espalhando luares, abraços
De maleitas infundadas.
Em horas iluminadas, instigaste
Ao sorriso e à saudade
Com ameaças veladas
E esqueceste
Que o esperar sentada
Foram tempos…

Agora, querido, agora….
Já é tarde!

sábado, setembro 03, 2005

Há um mês que navegam no espaço

estes pianos estéreis

pendurados pela cauda uns nos outros

sem remorso

semeando chaves e velhos tecidos de linho

sobre o terreno coberto de cabelos macios

que a electricidade anima.



Os farrapos da cortina tombam

sobre os braços decepados

mas eles voltam como as andorinhas.



Embora as cortinas de fumo persistam

não há qualquer dúvida

mergulham fundo nos números.

De um lado há faróis em Dezembro

e do outro lado

ao fundo da escadaria

há punhais de ouro.


(Poema de ARTUR CRUZEIRO SEIXAS)

terça-feira, agosto 30, 2005

Todo o Mundo Faz...

"Isso não se faz, mas todo mundo faz...


Na estrada, o policial rodoviário manda parar um carro.
O motorista lhe entrega os documentos do veículo, sua
carteira de habilitação e uma nota de 50 reais.
O motorista sabe que isso não se faz,
mas como todo mundo faz...

Nas bilheterias do show não há mais ingressos à venda.
Um casal que chega muito atrasado procura o encarregado
da segurança do show e oferece-lhe uma generosa gratifica-
ção para entrar pelo portão dos convidados.
O casal e o encarregado sabem que isso não se faz,
mas como todo mundo faz...

No consultório médico, o cliente pede que a recepcionista
lhe passe um recibo com valor maior do que o pago pela con-
sulta, para ter um reembolso maior do convênio médico.
Ambos sabem que isso não se faz, mas como todo mundo faz...

Na loja de artigos importados, os produtos vêm de um forne-
cedor milagroso, que lhe cobra metade do preço da concor-
rência e até dá notas fiscais. O lojista suspeita que o
negócio do fornecedor tem algo de ilegal, mas continua com-
prando dele.
Sabe que isso não se faz, mas o camelô faz, a dona da loja
de luxo faz, todo mundo faz...

Na televisão, o Presidente da República admite que seu par-
tido não declara a origem de todos os recursos que financiam
suas campanhas.
Diz que isso não se faz, mas como todo mundo faz...

Estamos todos muito indignados com as denúncias de corrupção
que varrem o Brasil. Para mim, o que acontece no Planalto é
um reflexo do que acontece na planície, em nossas casas.

Se quisermos que o país mude, temos de rever nossos conceitos,
refletir sobre nossas condutas, analisar em que aspectos de
nossa vida estamos sendo corruptíveis e pensar em maneiras
de mudar isso.

Por isso é que eu digo:
NADA MUDA ENQUANTO A GENTE NÃO MUDAR!!!"


(Mail recebido do Brasil)

quarta-feira, agosto 24, 2005

Vem...

Vem… a minha mão segura e caminha
Juntos procuremos a ternura do sorriso
Que se escondeu algures no tempo
No negro das cinzas
Sem música, sem brilho

Vem… sem temor nem medo
Meus braços são o apoio que precisas
Meus ombros o recosto, a carícia
Meu regaço a flor aberta
Que em candura mui certa
Tua mente descansa e deleita

Eu sei que árduo é o caminho
Com escolhos e densos trilhos
O silêncio com seus mantos floridos
Foi nossa concha, nosso abrigo
A voz cantante na solidão
Desfolhando florestas e mares
Sóis, estrelas, a cor de luares
E seus dispersos destinos

Mas vem… segura a mão
Que serenamente
Estendo

quinta-feira, agosto 18, 2005

O Gato

Bradam melros, cotovias
e até as próprias tias
atando as mãos à cabeça:
“Valha-me Deus, que tristeza!
Não é que o marau do gato
tão bonito e aperaltado
foi cair da janela?!”
“ A história, vai por mim…”
dizem o Zé mais o Quim
merceeiros da esquina
que passam o dia na fina
ombreira da porta a ver
as garotas que passam
e querem tudo saber
da vida da vizinhança,
“…o gato lãzudo veio
deitar-se no parapeito
da janela. Até que a gata
da Micas surgiu escovada
luzidia e perfumada
na escada de incêndio.
Vai daí, o gato um olho abriu
arrebitou uma orelha e sorriu:
‘mas que compêndio!...’
P’ra mostrar quão forte era
e para atrair a donzela
deu um salto mortal…
Não correu bem, afinal!
Pois uma rajada de vento
passou naquele momento
e ele voou uns cinco…dez metros
pr’ à copa da árvore mais perto
e lá ficou miando… quieto…
Enquanto a gata da Micas
rebolando o quadril, roliça
lhe atirava um beijo
e dizia: ‘é bem feito!...
p’ra não te armares em esperto!’ “