domingo, janeiro 22, 2006

Máscaras dos tempos


(pintura de Marina Bahovec)






Tempos difíceis
Quem não os sente?
Impostos… fome…
Desemprego…
Com este ar leve
Demente
Politização demarcada
Consciente
Dos males que acarreta
Em cada passo
“ameno”
Falas camufladas
De ódio e vento
Oco nas palavras
Que pelos olhos
Ouvidos da gente
Atravessam janelas
Telhados e portas
Deste povo anestesiado
Num leito dormente
Ódio que se espalha
A maledicência
Palavras… só palavras…
Eloquência vã
Politizada d’interesse
Umbilical.
Natureza destruída
Lentamente
Olvidos d’Amor
Luz da Graça
Obtida em dádiva
Ninguém quer ver
Nem sente
Vapor em águas frágeis
Que o Homem omite
Esquece, consente
Após cada romaria
Das máscaras

domingo, janeiro 15, 2006

Os dedos do horizonte









Olha! Não vês, não sentes
O abraço forte, intenso
Nas palavras que estendo
Olha! No vácuo do silêncio
Há estrelas que caminham
Um tempo ausente
De nós, somente
Repara! Toda a sabedoria
Não tua, nem minha
Desliza entre flores
Distantes
Sob amorfas nostalgias
Dos sonhos que nos caminhos
Fazem seus passos
Frementes
Eu sei que me sentes
Quando contente me sabes
Como te soube no tempo
Das horas doces
Constantes
Olha! Tão crua
A distância
Não esfria
O berço da palavra
Intensa e nua
Que nos dedos permanece
E os sussurros da lua
Pelas noites escuras
E frias
O sol acontece
A beleza da estrada
Em brilhos aquece
O que teima e
A pedra dura
Trabalha
Não esmorece
Olha. Vê.
Tu que sabes
E sentes
Os dedos que se tocam
Na dança silente
Do amor eterno
Ausente
Sorri
E diz
Contigo canto
Nos passos do horizonte

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Sem Título II









Literatura
História
Técnica
Ciência
Perdura
Palavra ausente
Esgotada
De mente
Silencia
Voos
A chama
Nas águas
Cortadas
Sem brisa
Nem vento
Ou lamento
Árvore desnuda
Esperança
Emudecida
Raízes estende
Ao sol do tempo
Serenamente
Apre(e)ndendo
O mundo
As gentes
A estrada

terça-feira, janeiro 10, 2006

A Montanha










Uma montanha renasce
Cada dia à minha frente
Montanha é de palavras
Líquens em ténues verdes
Rochas em escalada
Árvores nuas ao vento

Pela noite se esbate
Nesse mar que se esconde
Transforma a terra a água
Na cor indistinta uniforme
Banhada no silêncio que sente
E no sorriso dormente
Seus sons doces espalha
Sem rumo sem norte

terça-feira, janeiro 03, 2006

Sem Título I











Procuro os sons dispersos
As cores, a melodia
A construção da dança
Leve, serena, constante
Que meus dedos abriam

Encontro ecos de nada
Mente vazia que plana
Em ruídos… só ruídos…

No vácuo espalho o grito
Da minha voz que caminha
Por um túnel do deserto
De ligas estranhas
E finas

terça-feira, dezembro 27, 2005

Relembro...










Olho… Relembro…
E bebo de um trago
O reluzir das colchas alvas
Imaculadas
Que lentamente o algodão tecia
Arabescos
Em escada

Cada hora, cada dia
Correndo a noite fechada

Voos de um berço de plumas
Silêncio
Ausência
Memória das colchas alvas
Imaculadas
De um ontem que hoje
É passado

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Boas Festas









Cristais
Pérolas de fogo
Reluzentes
Seda das flores
Carinhosas e ardentes
Em laços transformados
Iluminuras
Vitrais
A ternura dos sorrisos
Abraço constante
Nunca esquecido
Uma teia de pinturas
Transparências
Melodias doces
Luar, sol e mar
O saber despontado
Em luz e cor
São vocês todos
Meus amigos
Para quem escrevo
O profundo desejo
D’alegres Festividades
Um Novo Ano de sonhos
Realizados
Em cada amanhecer
Sereno
De Paz

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Três andamentos Quatro passos






















Cubro-te de espelhos
de pedrarias
que a hora silente do dia
de ti vê as horas frementes.

Embalo-te na melodia
dos tempos e contra-tempos
que deslizam
e em queda ficam
nos olhos da mente

É um olhar infinito
pelo balanço das horas
num sussurro de memórias

Três andamentos, quatro passos,
em recuos e avanços
somando débitos de um
entre as vagas
entre as fráguas
lugar distante
comum

E parto
no desafio constante
desse azul que se sabia
diligente, estável,
e de ternura brilhante
p’ra mais um dia
por entre as horas silentes
que se previam
dormentes


(pintura de Manccini)

Poema in "Transparência de Ser"

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Os dias da noite
















Adormeceu no regaço da noite
uma ave de amor, sal e água,
cansada nos voos do silêncio -
vozes que se apagaram -
e no Verão escaldante
ardiam lágrimas

Uma cítara suas penas brancas
cantava -
seguindo o Outono das letras
em azul papiro -
espalhando
pela estrada

Uma ave adormeceu os dias
das noites no sereno sorriso
que o seu cansado bico
espelhava


Poema in "Transparência de Ser"

quinta-feira, novembro 24, 2005

Cantatas Profanas

















Saem trompetes, tambores,
entoando as cantatas profanas
de Bach.
Pelas aldeias, cidades,
rejubila o povo
com a opulência do coro
que se faz

São estranhas, são dramáticas,
embrião que a ópera traz.
Manipulado
torturado
seus véus rasga, desfaz

E a melodia enche os passeios
com um interior novo
num brilho circular
cheio
exultante na Verdade

Uma luz serena, em cores,
entoa as cantatas profanas
de Bach


Poema in "Transparência de Ser"

segunda-feira, novembro 21, 2005

A Arte




Dizem que são meras máscaras
Falam de delírios poéticos
Na fantasia das letras
Murmúrios das telas dos olhos
De quem correndo olha e lê
Aquilo que se quer ver

Tudo é certo
Não contesto

Mas tanta, tanta é a vez
Que a brisa passando perto
Ou o vento em queda d’ água
Trazem mares desérticos
E ouvidos de palavras
Silêncios ocultos nos folhos
Das medas em desfolhada

Que a Arte no voar sentido
Espelha em cada pincelada
A voz que lhe fala
E não vê as areias
As algas qu’espalha
Pelos estreitos trilhos
Serenos, doces, do sorriso
Que a sua ternura abraça





(Aos meus Amigos que tanto prezo e amo sem distinção de sexo,
credo ou raça, e a todos os que por aqui passam, conhecidos ou
não, e que o seu carinho me deixam, peço desculpas pela ausência,
mas nem sempre o Tempo consente que directamente vos abrace.
Assim sendo, com toda a ternura vos desejo muita Luz, Paz, Amor
e serenidade)

quarta-feira, novembro 16, 2005

Pelo São Martinho




Chegavam pessoas aos pares e famílias inteiras, mais lentas ou
apressadas, crianças em correria, com o sorriso estampado
nas faces morenas, rosadas pelo frio que a noite enfeitava.

Do duro labor de cada dia, o pensamento cortava as asas ao
vento avistando o entusiasmo das gentes.

Junto ao adro da igreja, crepitava a fogueira no chão de terra
batida, lançando faúlhas no ar e línguas de fogo guloso que, com
seus bailados, tentavam afagar as estrelas seguindo a música em
compassos, que se ouvia.

Que lindo!… exclamava o povo.

Aspergiu-se água, não da benta que é pecado, por cima das
labaredas e nas brasas rubras, serenas, castanhas foram
lançadas já o vinho tinto corria de boca em boca, assim como os
nacos da boroa de milho que o padeiro cozera no forno vedado
com bosta fresca apanhada de manhãzinha.

Os mais afoitos, segurando as pontas da coragem que em jorros
de vaidade lhes surgiam no peito, saltavam a fogueira entre os
gritinhos das moçoilas e olhares de cumplicidade furtivos.

Pelos dedos singelos do povo, a noite corria sincera, despreocupada.

O Sôr Abade, distribuindo a palavra entre as gentes, sorvia, com
golinhos discretos, o sangue de Cristo que no sacrifício da missa
se oferecia.

E, sorridente, agradecia ao Firmamento por ver o seu
rebanho reunido nesta noite encantada trazida pelo São Martinho.

sexta-feira, novembro 11, 2005

O Segredo




Acordo na palavra que me espreita
E me sussurra baladas
É uma palavra redonda, cheia
Um segredo de amor e lâminas

M’ espreguiço entre o veludo das flores
Que minha cama encandeiam
E me agarro, deslizo, deleito
Nas gotas que o orvalho tece a palavra

Das lâminas folheio o calor emitido
Que vergo, desdobro em mil cores
Do segredo aninhado em meu seio
Canto em ondas melodias doces
Que pinto nos abraços do sorriso

terça-feira, novembro 08, 2005

Folhas de Outono





Nas folhas rubras do Outono
Contigo teço meu leito
E voo no sonho
Dos brilhos desnudos
Na voz do silêncio
Plano… revivo
Na missiva do correio
Em folhas amarelecidas
Aromas há não se apagam

Passa a hora passa o dia
Por este país doente
Romaria que o povo abraça.
Que fazer por quem não sente
Falas plenas de desgraça
E que incauto sorridente
Os braços pende e acata?

Mesclo tudo no cansaço
Vontade que se faz tarde
Se te espero te desejo
Âmago rubro meu peito
Outono desfeito
Folhas caídas
Muros de amor
Ternura
Saudade

quinta-feira, novembro 03, 2005

Tempo



Uns se encobrem de folhas secas
Outros abrem a escuridão do dia
Tudo acontece nos momentos
vestidos de fantasia

Assim se passa o tempo escasso
Dos rasgos esboço meu traço
nos farrapos omitidos
a que assisto

Sofro pelas dores alheias
tão inteiras de cinzas
que me morro
no meio delas

E se prevejo
cada passo, cada rasgo
nos ténues fios que sinto
me enrolo
em novelo me torno
e hiberno na caixa
do tempo sem tempo
deixando a porta aberta
do sorriso
para o amigo
que passa

sexta-feira, outubro 21, 2005

Tapete de Folhas







Sabes, ontem estive a rever memórias ou lembranças,
como as queiras chamar. Com espanto descobri que tudo
se vai guardando, desde pregos e parafusos até intensos
abraços de mar.
Fui levantando véus a paralelas, assimetrias simétricas,
aos doces cantos da alma. Vi passar flocos de estrelas,
pontes suspensas, verdades e inverdades camufladas
em letras.
Muita ternura deslizou entre as margens de orvalhos, nos
trilhos de barcos enfrentando tempestades, nas pradarias
verdejantes de luares.
Tanto, mas tanto foi destapado na melodia das vozes correndo
em colorações e brilhos, sempre presentes na serenidade
do sorriso.
Sabes, ontem, a poesia adormeceu o Outono
sobre um tapete de folhas doces…



Há uma estrada coberta de Outono
Um tapete de folhas esbatido
Recosto intemporal do poeta
Que segue a voz do silêncio
Serena... serenamente
Desfolhando sorrisos

domingo, outubro 16, 2005

Vagas de Zinco











Por vezes há vagas tempestuosas,
Revoltadas que nos entram
Pelas janelas duplicadas,
Muradas, em espuma
De zinco ardente


Surgem do nada, na corrente
Gelada, em misturas de vento.

Sempre me transtornaram as águas
Que sobem imagens sombrias
Personificadas de brisa
E me cravam silêncios
Partindo muros
Correntes

Nessas vezes aguardo serena
O renascer da clarividência
Das vagas que em espuma
De zinco quente
Transformaram noites e dias
Até que em brilho unam
Almas e mentes

sexta-feira, outubro 14, 2005

Mais...que mais.....









Não vens quando te espero
Tão pouco a sombra de ti
Me desce um desgosto infindo
Sobre os mares de carinho
Que previa e que não vi
(Mais p’ra ti que mais p’ra mim)

Sussurras ao meu ouvido
Como te adoro querida
Eu fico lerda, sem jeito
Me estremece no peito
O que devia e não fiz
(Mais p’ra mim que mais p’ra ti)

Quando meus olhos afagas
E me deslizas em letras
Nos sorrisos de ternura
Jorram palavras nuas
Qual cascata leve, amena
(Mais p’ra mim que mais p’ra ti)

Se de força eu te cubro
Na hora difícil do dia
Te enrolas nos meus braços
Seguras as pontas dos laços
Abrigo, porto seguro
No tempo do quem diria
(Mais p’ra ti que mais p’ra mim)

E neste empate técnico
Que o acaso teceu
A vida passa sem árbitro
E corre…corre…correu…

segunda-feira, outubro 10, 2005

Etéreo





Despi-me dentro peito

Neste sentir de mim

Vesti a mente a teu jeito

E as folhas de Outono caídas

Dançaram rubras na brisa

Qual beija-flor

Etéreo

Sem fim

sábado, outubro 08, 2005

As Gatas


















Pelo fim-de-semana
se passeiam as gatas
no meu quintal

Vejo-as sair, felpudas,
académicas, lãzudas,
todas tão diferentes,
no alvorecer de cada dia
que o fulgor dos anos trinta
em corpo habita
e consente

Como entraram? Não sei!
Talvez garridas, floridas,
inconscientes,
na calada da noite
permitida,
com suas patas de veludo
e garras que sabem tudo
por quem mais sabe e vive
urgente



Poema in "Transparência de Ser"