sábado, maio 23, 2009

Maio, maduro Maio





















Prevemos caminhos, abraços,
Sentidos nos laços do tempo.
Prevemos mas não sabemos
Se o abraço se esvai no pêndulo
Que alonga lento os laços

Fomos o sorriso a alegria
Cúmplices ensejos em traços
Da vida outrora cantada
E que o mar distancia
Em ondas batidas na fraga

Do Maio, maduro Maio,
Cantou o poeta, as águas,
Num labor em poisio incerto,
Renascido e da rama aberto
Cada dia primeiro, em chama

Assim movemos o silêncio cantado
Assim espaçamos os abraços
Neste mar calado e ameno
Que revolteia flores a contento
Nas areias que nos trazem
E que ocultamos, alheios,
Nos desvelos da saudade.


(imagem recebida por e-mail)

quinta-feira, maio 07, 2009




















Pai
Todos os dias tento florir os rios das casas,
Afagar peixes aflitos que saltam nos telhados
Das mãos de exímio e incauto jogador
Que da existência cultiva baralhos


Pai
No mar, o sal cresceu em lágrimas,
Secas, áridas, pelas dunas do concreto
E sob a incerteza certa do vento,
Lerdas, sobrevoam andorinhas


Maio já vai maduro, pai.
A criança em maias tecida
Desfolhou palavras de vidro
E sobre a tela em letras sentidas
Tenta, cada dia, o plantio
Da flor-semente do sorriso
Sobre as asas das avezinhas.


Porém, o primeiro em Maio esvoaça
Pelo unívoco silêncio de um grito -
Passeante em águas baças


(imagem recebida por mail sem nome de autor)

quarta-feira, abril 08, 2009

Tempestades

























Falemos de tempestade,
de nomenclatura, da gramática,
do facto de facto estudado
e em urdidura consumado,
da discrepante revolta estática
num tempo de propriedade

Do levante ao poente
varrem-se letras, sinais
gravados no útero da mente
que nem o tumulto pára…
E nas tempestades, sem mais,
da árvore erradicam-se ramas

Falemos baixinho dos ais aflitos.
Acomodemos as águas
a advir nos olhos cansados
de dor nas ínfimas entranhas
e, no sufoco do grito,
em convenções divulgado

Com tais raios e troviscos
na linguística fragmentada,
sob espanto nunca visto
pela semiologia alterada
sopra um vento com sorrisos:
- Adapta-te ou ficas parada!


(imagem de Blanca Ruth Casanova)

sexta-feira, março 27, 2009


























Entontecidos e acuados
deambulam pelos telhados
em magnética invisibilidade

São vozes derramando vitualhas
em odes de tempestade
tacteando a flauta da verdade

Dizem: maldição, incongruência!
Dizem: da menina-larva,
do benjamim precoce,
o aclarar a demência…

Olvidam que é hora do amor,
da partilha em simplicidade
qual sublime beija-flor
a tecer partituras de humanidade
com a coragem e vigor
que na natureza de nós
em ternos laços
nos dança


(imagem Getty Images)

(participação no Jogo daqui com as palavras:
amor, beija-flor, benjamim, coragem, flauta, maldição,
ode, partilha, simplicidade, tecer, verdade, vitualhas)

segunda-feira, março 16, 2009

Vidas em Fragmentos

Teresa Gonçalves, também conhecida pelo pseudónimo Ísis,
com várias obras de poesia publicadas, lança pela Edium
Editores o seu livro de contos “Vidas em Fragmentos” no próximo
dia 21 de Março, às 21,30, na Junta de Freguesia de Vermoim,
sita à Av. D. Manuel II, 1573, Maia.

Apresentação a cargo do poeta e escritor Fernando Campos Castro.
Acompanhamento musical por Carlos Andrade.























Até ao dia 21 do corrente, às 21,30.



quarta-feira, março 11, 2009

Rio alma


















Lento corre… corre claro…
do verde pinta tonalidades
no solo esconso e avança -
inclinado, inquinado -
procura de longo alcance

Corre entre o silêncio das causas
simples que à natureza encanta
e corre… corre…
ao murmúrio das folhas dança
o nascimento de um passado
em avanço incessante

Pelo caminho desflora
flores, raízes e pedras -
pela noite, pela aurora -
e num tumulto suave lança
a ilusão ao poeta
que em seu nicho desperta
a musicalidade de um canto

Corre em verde, em cobalto,
pelo linho em sépia terra…
o caminho é desperto
a quem o bebe
e da leveza se espanta


(imagem recebida por mail sem autoria)


quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Em outra dimensão...

Dentro da noite de nós
há mistérios incontidos,
peças de vento
na vasteza de um oceano infindo,
a oscilação de um navio
em indomável situação de vazio

Soberano da noite sem voz,
pela savana avança o tigre
ao rufar dos tambores
em monocórdica batida.
A agudeza do seu olhar
em branco e preto tecido
lapida, em subtis fragmentos,
as raízes do dia.

É Morfeu clamando o esmaecido
com a sacudidela de suas teias
incomensuráveis, densas e finas

sexta-feira, fevereiro 06, 2009






























Seremos ...
a porta do vento, um tempo que passa;
da gesta, o momento;
na minuta de uma tela, a palavra;
o despojado improviso
na lonjura de nada;
o vazio de um ontem sentido;
do canto da roda, a transparência esparsa

Mesmo assim, lançaremos
à brisa das águas
a utopia das cores em miscelânea,
e viveremos
o vórtice lento
nos braços da árvore
que embalaremos,
tu, eu, nós, em igual tempo,
até que em luz o silêncio se faça

Então, dançaremos
amenos sorrisos
de amor em cascata


(tela de Maria José Amorim)


quinta-feira, janeiro 29, 2009

O 9º defeito genético























Chamaram-lhe anormal,
escaganifobético, demente.
Mal eles sabiam
de Friedreich, a ataxia,
fardo que se carrega e se sente

Foi num querer singular,
supremo,
uma fábula à deriva,
um desejo profundo,
autêntico,
para aquele renascer dando vida,
fruto de paixão, um novo começo,
límpido,
num salsifré em hora tardia

Nada nem ninguém previa
o nono cromossoma doente
e que, aquele fardo pesado, dolente,
transporte de alegria e sofrimento,
mais tarde seria,
num qualquer tempo diferente,
a solidariedade de tanta gente
sob ternos sorrisos,
carinho e amor intensos


(participaçao do jogo daqui )


quinta-feira, janeiro 15, 2009

















Há momentos inesquecíveis,
outros tantos de partilha
entre aprazíveis sorrisos
Há momentos feitos de quase nadas
que tanto nos marcam
e em sussurros nos dizem:
Estou aqui, nesta presença ausente!

Aguardamos e
cuidamos que amanhã ainda é tempo…
ensejo que nos passa levemente
em maré e ondas de vento

Neste dia,
aquele imenso abraço é urgente
para que a distância da vida
nos torne unos, claros e perenes
na amizade que jamais se esquece
apesar dos percalços da vida
e do recobro do silêncio
nesta pedra que o azul suspende


(pintura de Enrique Lemus)

domingo, janeiro 04, 2009

Luar de Janeiro

































Gosto do suave perfume das flores,
das marés o salpicar,
da gota amena do orvalho,
da brisa fresca da manhã,
do sol despontando sereno
ao fundo da minha janela
que mantenho entreaberta
às aves singelas e seu trinar.

Gosto do intenso aroma a terra
enlaçado em maresia,
das pedras com musgo vestidas
na voz cândida do poeta,
da lua se esvaindo tímida
em cada novo despertar.

Gosto da árvore erecta sem rama
neste Inverno duro e frio,
do transeunte que traça
no silêncio o seu destino,
da sinfonia colorida
no infinito em pinceladas
qual pintor que beija e abraça
o belo do mundo e canta
com ternura e nostalgia
os sentimentos da vida
em Janeiro ao luar.


(Pintura de John William Inchbold)




quarta-feira, dezembro 31, 2008

Flor de águas
















Ao meu amigo Manoel Carlos


Espelho meu…
Espelho de cada hora
Que no tempo desfolhas ramas,
Ternas ramas d'outrora,
Cantadas
Nas manhãs de folhas cândidas
Onde me aninho e embalo
Meigas e doces palavras

Se minhas rugas afagas
Com mãos suaves meus cabelos
Brancos, em flor de águas,
Contigo eu adormeço
E em leves sonhos aconteço
Na magia de menina
Que é meu e teu sustento.
E se de utopia eu falo
Nosso será, eterno, o começo



Que a Amizade, Fraternidade e a Paz
enlace todos os que, por mim, seus caminhos
cruzaram. Um Bom Ano de 2009.

domingo, dezembro 14, 2008

Por vezes ...

















Por vezes,
nas horas há letras escassas
prolongadas no caminho
em submersos compassos
que não dominas… domino…
no cruzadismo dos dias

Por vezes,
é tempo de emoções contidas
nos rastos antigos dos passos;
desse tempo eternizamos,
do amor, a etérea dádiva.

E, do sonho,
marés brilhantes e claras
nos permanecem e animam
nos momentos de silêncio

Por vezes… nas vezes quantas…


Com muito carinho desejo a todos os que aqui passam ou
passaram um Alegre Natal e que o Ano Novo vos traga
muita Felicidade.

(Imagem Google)

segunda-feira, dezembro 08, 2008

A "estória" de um poema

Em 17 de Novembro de 2006, publiquei no meu blogue brancoepreto-I um singelo poema que foi lido pela primeira vez no Lugar aos Outros 35, do Estúdio Raposa, pela voz inconfundível do Luís Gaspar.

Durante corrente ano, a Truca estabeleceu informar os seus leitores sobre os 10 poemas mais ouvidos mensalmente no Palavras d'Ouro.

Para surpresa minha, fui constatando que o mesmo poema ficou classificado em 6º, 5º e 7º lugares nos meses de Fevereiro, Março e Outubro, respectivamente.

Espantada com tal classificação, indaguei junto do meu amigo e responsável pelo programa Luís Gaspar que me garantiu a fiabilidade dos downloads efectuados e das estatísticas apresentadas.

Perante os factos acima, quero agradecer à pessoa (ou pessoas) que, com dedicação, perseverança e (acredito) amizade, fizeram com que o meu poema "Em rosa rubra" atingisse o 4º lugar no mês findo.

Nos teus braços de palavras
Me enrolam carícias mudas
Qual rosa rubra despontada
Que seu doce aroma espalha
E pelo espaço perdura

Soltam-se pelas cidades, inter muros
Os pontos que no Tudo abarcam
Estilhaços esvaídos em leve fumo
Quando em ti me lês nos traços
Desprendidos, planos, profundos

Sob as longas raízes criadas
Me enfeitas e desnudas
A serenidade dos passos
O beijo que o vento permuta
Esse encontro inesperado
Num qualquer presente-passado
Feito de essência e candura

Assim me enlaçam palavras
Fragrâncias de rosa rubra


Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

terça-feira, dezembro 02, 2008

O sonho e a vida



















A quem perguntarei sobre o lapso
entre o sonho e a vida?
Quem me dirá do deslizante pincel
que a tela não termina?
E das cores, do negro e branco,
que em galhos desnudos se aninham?
E do sorriso das pedras
sob os afagos do rio
quando o sol acontece
nas manhãs quentes ou frias?

Nada sei da mutante existência
do dia a dia,
da avaliação contínua,
do simulacro do medo
que dos sonhos tantas vezes é tormento.

Somos uma partícula mínima,
observante e distraída,
no imenso espaço atento,
crendo que sabe e pensa
dos indeléveis caminhos.


(imagem de Nora Carrol)

domingo, novembro 30, 2008

Cristal












Uma rocha; num prado a Aurora,
verdejante planura em cristal.
Leves, tilintam cincelos
doces cânticos de Natal

Contemplo o misticismo das mãos
que pelo rosto de tantos espalham
a preciosidade da via do pão,
sem urdir aleivosia
nem falsa comiseração

Nesta rocha onde me sento –
eremitério de silêncio – secos,
meus olhos jorram unguento
para que a alegria alcance
a face de cada criança
que pelo mundo se estende
e que o fluxo do cristal brilhe,
em infinitude, nas mentes,
para que cada dia seja Natal



imagem de Arbego/Armando
(para o 8º Jogo daqui )

quinta-feira, novembro 06, 2008

como um traço de vento

























Por ela passou, fugaz…
Simbiose perfeita de terra e luar
Como um traço de vento

As palavras rubras alongadas na altura
Sabiamente
Urdiam momentos de espanto e silêncio

Nada sabia
Da aflição da vida
Da criança esquecida entre os trapos do caminho
Omissão de tanta gente
Dos seres cavos que habitam
Flores leves e tímidas
Que hauriam ternamente

Soletrava a crua nudez dos passos
O poço profundo do caos
Sob o nicho das letras miúdas,
Tão cândidas, tão puras,
Em deslizantes ecos no espaço
Da realidade inconsciente

O que dela esperava, não sei,
Se jamais aprofundei o mistério
Que em capa se estende
Nos cintilantes olhos de ténue gente


(imagem de Henri Gervex)

sexta-feira, outubro 31, 2008

Três tempos






















Sobre os telhados das casas
O mundo dança
Em falaz sintonia
Qual bailarino-equilibrista
Lançando raios na escuridão

Do amor menor,
Galanteio em tempos idos,
Vivenciámos a capitulação
Num reino de fausta mentira

O amanhã, em harmonia
Será tecido nos alinhavos –
Esforço de longos dias –
Da liberdade, da luz da vida
Num unívoco sentimento
E sob os telhados das casas
Bailarão sorrisos amenos
No gesto leve da rama
Em marés dúcteis e calmas

Assim se queira… Assim se faça…


(imagem de Alfred Gockel)

(minha participação no 7º jogo daqui )

quarta-feira, outubro 22, 2008

Estado das coisas














Neste estado de coisas singelas
De facilidades mútuas
Premeditados erros são acasos
No trajecto usual da lua

Quando se fecha uma porta
Além, janelas se abrem
Entregando do vento norte
As areias em voragem

Revolto, o mar se modera
Pelos contos inacabados
Tão fáceis, doces e breves
Se a vida que se leva
Desliza para outro lado

As coisas seguem correndo
Embotando singelos pecados
E na futilidade que se dita
Suave, adormecem os enganos
De um presente… passado
Na obscuridade deste estado
De coisas dóceis e leves


(imagem de Jorge Oliveira)

domingo, outubro 05, 2008

60 em sol e azul-mar























Breve, tão breve
Este vasculhar do corpo da palavra

Breve, tão leve
No casulo, o nefelibata se fez criança
Na fusão das flores, luar e da água
Pelo avassalador ostracismo das raízes em rosácea
Qual silhueta amena e cândida

Breve, tão ténue
O conselheiro exponente da morte, da loucura, do lodo
Tecia, degrau a degrau, um inferno de sombra
Com pena de chocolate
Com o erodido e variável método do sobressalto
Pela vulnerabilidade da obstrução
Em forma de tapeçaria sobre a caixa de cal e vida
Em contínuo movimento

Breve, tão breve
Pensa-se afastar o vapor envolvente
Da conversa em tempestade
Sobre o distanciamento amortecido num país sem farol
A inundar de orvalho em linha vertical

Mas o poeta, apoiado no cotovelo,
Desponta a manhã
Num intenso, imenso divagar
Fazendo emergir da viagem
Pelo céu das letras amenas
Um amor maior a comungar

Breve, tão leve
Renasce a palavra de sol e azul-mar
Num sorriso com licença para voar


(pintura de Chagall)

(minha participação do jogo daqui )