domingo, janeiro 06, 2013

Vi!


















Vi, ninguém me contou,
o que sentias nessa pele
seca, dura e fria,
outrora tão macia e cuidada


Vi, com os olhos que o ser transporta,
sentires diversos
caminhantes de porta em porta
que abrias e não fechavas


Vi a omissão de plenos dias
nas folhas desbotadas pelo tempo
nesse livro adormecido
que não cuidavas


Segui teus passos em silêncio
qual cristal pela neblina esfumado.
Por ti, senti o medo
na flor de um tempo não desabrochado
quando passaste
absorta, num mundo distante,
a meu lado


Crê que as agruras da vida
serão a luz nos teus passos
das horas acres, indomáveis
em que te vi
amorfa, desatenta, desesperada

sábado, maio 26, 2012

Do vento...

Falemos do ruído do vento
Do despertar intenso em cascata
Das mãos que em sonhos se agarram
Às névoas escuras e claras –
Estigma de esmaecidos momentos
Em branco e preto sentidos

Falemos de todo e qualquer pensamento
Correndo nas veias do acaso;
Das folhas redondas que caem
Em leves ornatos de dança
Sobre o prado que as enlaça
Verdejante ou definhado

Falemos da terra que trais
De que nasceste e para onde vais
Em adornos de renda;
Da mulher formosa que pariu ais
E a ti dedicou sua senda;
Dos capitéis jorrando lágrimas -
Refllexos em transparências -
No leito seco do rio

Falemos de memórias trazidas no vento;
Da rama esmagada, dolorida
Reclamada pela encruzilhada do tempo
Sem mais espaço nem medida;
De gente leve em cantaria -
Entalhes de vidas cruzadas
Pelas Sílfides – na sina em ti assente

Falemos baixinho
Mas falemos
Da palavra a ausência
Em imersos sentimentos

sexta-feira, maio 11, 2012

Flutuando

Parti
sob as brumas de um recente passado
no marasmo intenso dos dias

De súbito, das letras me apaguei
e ainda hoje não sei
das palavras fugidias

Durante a noite dos dias
em véus adormecida
portas, janelas fechei
aos tempos idos:

minha mãe, sorrindo, as abria;
meu pai, um poema inacabado
em meu peito escrevia
com flor de sal e água
que o silêncio afagava
qual doce canção de outrora
nos caracóis de menina

Assim permaneci tempos infindos
sem hora nem data de despertar o arco-íris
amar a dança em mim intensa
sob brandos sons emitidos
da aveludada flor em rosa aberta
com ternura e sorrisos



(pintura de Chen Yang-chun)


segunda-feira, abril 16, 2012

Labirinto dos sonhos


Caminhava num estreito e degradado corredor
sumida nos sons de um silêncio profundo, abstracto.
Para trás, ficavam seres estranhos
com seus olhos carregados num misto de dor, ódio,
desconfiança e espanto.
Caminhava apressada como que instruída
pelo apelo da derradeira porta.
Na sua pressa, quase esbarrou com três homens furibundos
sustendo no ar uma frágil e pequena cadeira de pinho
ocupada por uma criança com uma corda grossa no pescoço.
Atónita, alarmada olhou para cima.
A meio metro da cabeça, a ponta erecta estava cortada.
Entrou no quarto dos fundos onde uma mulher desvairada
acusava, com gestos, o menino da cadeira por todo o mal sucedido.
Que mal?
Porquê tanta demência se nem um som se ouvia?
Olhou ao seu redor tentando entender o que apenas sentia.
Naquele quarto pequeno, onde o caos se tinha instalado,
avistou mais duas crianças, imóveis, subnutridas:
uma num canto em novelo encolhida,
outra numa enxerga e virada para a parede.
Devagarinho, rodou-a.
O seu mundo era outro.
Aquele das coisas mais simples e belas
onde a mobilidade cerebral a ciência ainda não conserta.
Mais tarde veio a saber que, a menina da enxerga,
havia sido encontrada, abandonada, num destroço qualquer.
Ainda hoje estremece pela peculiaridade isócrona do sonho.
(pintura de Carrington)









terça-feira, abril 10, 2012

ParesDEpar


    Como as palavras
    os pares caminham
    unidos
    pelos estádios da alma

    Em sussurros coloridos
    a alegria baila

    Entoam cantigas
    memórias da Dita
    e, da Desdita
    os percalços
    de rumos tomados

    Espelham sorrisos
    de vidas passadas
    e de esperança
    na brisa rude e lenta
    que amanham

    Pelo pincel da noite
    sob um amor inspirado
    são pares de um todo
    em terna dança
    na paleta das palavras


    (acrílico sobre tela de Varatojo a quem agradeço e desejo imenso sucesso
    para a sua exposição "De então para cá", a realisar no dia 12 do corrente,
    das 18H às 20H, na Galeria Municipal Palácio Ribamar, em Algés) 
   

quarta-feira, março 21, 2012

Verbo


























Chove! Apenas chove!
Assim se ensina, assim se dita
e a interposta pessoa não se move
subjugada pelo rumo da sina

Naquele dia choveu!
Num além longínquo ou perto
e, sob a intransigência do verbo,
cada sonho esvaeceu

Mas eis senão quando
se assume o diletante Poeta
urdindo caminhos sem meta
na deflexão defectiva…

E me chove tanto, tanto,
que me anoiteço no canto.
Mas se me prouvesse a vida
amanheceria, estou certa,
nas mãos leves do Poeta
e sorriria. Então sorriria.


(pintura de Julio Romero de Torres)

Poema in "Transparência de Ser"

Flor de Letras
















Docemente, alinho palavras
na entretecida canção de sal e água.

Por vezes, ao seu redor
esvoaçam picos, formas de pássaros,
coloridos alinhavos sob um fogo encantado

Olho-os na voz do silêncio desfolhado.

Se por vezes sinto em acalmia a brasa,
outras, estremeço pelo vazio
gritante que clama a inconsistência,
a lenta perdição da mente
pelo deserto de inconstância desperto
que da chama nada entende
nem da verdade

Quisera ser aroma em flor de letras e,
gota a gota, elaborar a palavra em falta
quando cada verso de dor e treva
transforma em dúctil manto
essa voz de pranto e mágoa

Às vezes, vibrante, penso
silenciar o remoinho do espaço
e sorrindo docemente espalho
no fogo, o sal, a água
da eterna estrada em cascata


(fotografia de Luiz Edmundo Alves)

Poema em "Transparência de Ser"

sábado, março 17, 2012

Borboletas






















Solta dos sentidos
a palavra
sob os dispersos sons emitidos

Pausa-te no verbo
reinventa-te
cresce-te no verde da estória

e

na incompletude da espera
pela rama emoldurada
desenha
coloridas borboletas
na comitente hora
em reticências

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Deambulações primeiras


(imagem de Edward Robert Hughes)


Sobrepostas as linhas primeiras dos traços
no arrojo inocente dos planos rectos
por onde caminhávamos sozinhos -
eu aqui, tu desse lado –
prisioneiros do vale dos sonhos
em palavras projectados
no centro atmosférico da sala

Dançávamos-lhes as sombras,
escutando pela meta noite os passos,
como se gente fosse
ou entes em deambulações abstractas
quando mais não eram
do tom, a leve mudança,
a imperceptível molécula
que se abre e se dispersa
no rebordo de uma folha gotejante

Amar assim, sobre o verde atapetado,
debruçando-nos em pontos lisos, entre planos,
e com o silêncio na linguagem
partir… acompanhados,
é um tudo sentir, num quase nada


(in "Transparência de Ser")

O fio do Tempo














pintura de Francisco Laranjo
Deslizamos nas palavras
do tudo, do quase nada
que transitam num estado catatónico
sinóptico, lerdo, morfológico
sob uma cândida dolência
no fio das horas sem tempo

E tecemos juntos a igualdade
esse sentir convergente
de quem plana nas mesmas asas
mesmo quando inconsciente

Claros e plenos nos vemos
da distância percorrida
da vida que vidas cria em letras
do adormecer na praia do medo
da aventura em defesa
e da Beleza... a sua essência

Assim intuímos as palavras
nos recônditos ínfimos de um solo arado
de tanto sentir semeado
sob sorrisos serenos
E nem nos desligamos
na água, no sol, no vento
a Natureza de nós é parte
calorosa e intensa


(in "Transparência de Ser")


terça-feira, novembro 08, 2011

Esclarecimento

Olá, a todos os que por aqui passam.

Agradeço os e-mails que me têm enviado e muito me apraz
verificar que, apesar da minha longa ausência, a Amizade resiste
ao silêncio.

Em tempos recebi uma sms a pedir-me para entrar no blog Cosythings
aberto, nessa altura, por umas amigas no blogspot.

Inexplicavelmente, algumas partes apareceram postadas neste
meu blog. Ainda hoje não sei como tal aconteceu.

Tenho conhecimento que não são pinturas mas sim Trabalhos Manuais
onde são usados tecidos antigos, miniaturas diversas e outros artigos,
em molduras envidraçadas.

Não faço parte desse blog nem passei a fazer Trabalhos Manuais.
Ainda estou de "licença", com a esperança de regressar em breve.

Um bjinho e uma saudosa flor.

domingo, outubro 16, 2011

COSYTHINGS:   A Cosythings, surgiu por bincadeira! Um dia, re...

COSYTHINGS:
A Cosythings, surgiu por bincadeira! Um dia, re...
: A Cosythings , surgiu por bincadeira! Um dia, resolvi tentar fazer uns quadros para oferecer aos filhos de um casal amigo muito especi...

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Boas Festas

















Muito grata pela amizade e compreensão que sempre e
em especial este ano me dispensaram, desejo-lhes
umas Boas Festas e um bom Ano Novo.
Um carinhoso, imenso e saudoso abraço e uma flor da

Amita
Fátima Fernandes

sábado, outubro 16, 2010

L' empreinte du silence



















Sem ter-te nem guar-te
observo o instante da hora
no espaço fugaz da memória
e contemplo
risonhos momentos
de água límpida e clara

Um quasi nada separava
dos templos o branco imaculado
por onde percorremos
outros trajectos de abraços
na silenciada sinfonia
cúmplice que amor enlaça

Fomos os passos na borda do rio
que desfio… desfias…
pelas letras e sorrisos
e no tempo se tornaram
gotas de aurora em traços


(pintura de Janusz Migacz)

domingo, outubro 03, 2010

III Antologia de Poetas Lusófonos



















Depois do sucesso das I e II Antologias de Poetas Lusófonos, que contou com
mensagens de parabéns dos Presidentes da República de Portugal e do Brasil,
assim como do Primeiro-ministro de Portugal, de diversas Embaixadas, imensas
instituições e muitas pessoas individuais nasce agora a III Antologia de Poetas
Lusófonos.
No total, são mais de 200 poetas nas três Antologias, de 14 países. A III Antologia,
conta com a participação de 98 poetas de 11 países.
Neste sentido:

O Presidente do Município de Pombal e a Folheto Edições têm a honra de convidar
V. Exa. e Família para a apresentação da III Antologia de Poetas Lusófonos, a
realizar no próximo dia 9 de Outubro de 2010, pelas 16 horas, no Auditório da
Biblioteca Municipal de Pombal (Portugal).

Haverá um momento de poesia com a participação de vários poetas e actuação do
Grupo de Tunos de Leiria. A cerimónia terminará com um Porto de Honra.

sábado, julho 31, 2010



















Docemente, alinho palavras
na entretecida canção de sal e água

Por vezes, ao seu redor
esvoaçam picos, formas de pássaros
coloridos alinhavos sob um fogo encantado

Olho-os na voz do silêncio desfolhado

Se por vezes sinto em acalmia a brasa
outras, estremeço pelo vazio
gritante que clama a inconsistência
a lenta perdição da mente
pelo deserto de inconstância desperto
que da chama nada entende
nem da verdade

Quisera ser aroma em flor de letras e
gota a gota elaborar a palavra em falta
quando cada verso de dor e treva
transforma em dúctil manto
essa voz de pranto e mágoa

Às vezes vibrante penso
silenciar o remoinho do espaço
e sorrindo docemente espalho
no fogo, o sal, a água
na eterna estrada em cascata


(fotografia de Luiz Edmundo Alves)

Poema em "Transparência de Ser"

domingo, julho 11, 2010

Chão de meninos


















Abriu-se um rio de fogo
Naquele chão de meninos
Ancorados num navio
Previsto porto de abrigo

Erravam suas formas singelas
Em sonoridades coloridas
Tão rubras, tão amarelas
Palco das peças da vida

Vaguearam em descobertas
Cada canto, cada estigma
Efémeras lápides, esquinas
Sob a cruz de ufanas velas
Que o tempo deu guarida
E de sombras se vestia

Num leve sopro de vento
Em fel se abriram as águas.
Inomináveis descobertas,
Vis portentos resguardados,
Surgiram com turvas máscaras
E os meninos gritaram:
Mais não quero! Basta!


(pintura de Georges Seurat)

sexta-feira, junho 18, 2010

Singularidade




























Ilusão súbita e tardia
Quando mãos abriam em ondas de prata
Seu corpo submerso em bolsas de água -
Quimera em mantos esparsos

Respirava o deslizar borbulhante da pele
De intensidade profunda e leve
Qual suave e doce melodia
Pelos devaneares sentidos
De um silêncio em que se abarca
Num farol estranho que canta

Voava pelo mundo da utopia
Em fugazes cordéis de laços
Sorrindo incauta e intensa
Nas bolhas desfeitas nos braços
E pelo corpo do poema
De traços dobrados
Geravam-se raízes
Em sépia clareadas


(imagem do Google)

domingo, maio 30, 2010

Cogitação
















No nicho que me abriga
Me protege e se agita
Pelas agruras do tempo
Caminho e voo ciente
Das misérias deste mundo

Entre ditos e desditos
Protegem-se conveniências
Louva-se a prepotência
De uns outros que despertam
Uma dolorosa sequência
De extensos dias obscuros
Inclementes, informes

Sendo um circo fechado
Protecção de ténue gente
Que pode mas nada sente
Pelos trilhos cruzados
Há sempre alguém que fala
Mais alto e que rasga
Dementes rajadas de vento

Por isso canto o laço, o amor
O terno abraço em riscos
Que a sede de nós reclama
E com afagos teço abrigos
Entre estas brumas, na rama


(imagem recebida por e-mail)

sábado, maio 01, 2010

Um dia pela Vida*

























Codificados são os números
símbolos, letras, espaços
que te entoam como laços
no fulgor do teu ser profundo

Segues o texto indecifrável
pelas mentes normalizadas
tentas outras sementes
de outrora, em ondas claras

E de repente
como animal em cavalgada
na árvore em doce rama
descobres da vida a essência
no que a palavra cala
pela subsistência da flor amena
que em estádio de silêncio
o amor preenche e vaza

Quisera ser a triangular forma da palavra
no subtil aroma da longa, incansável vaga
feita de fogo, terra, sal e água


(imagem recebida por e-mail)

* poema para o livro "45 Poemas pela Vida
corrente solidária". Núcleo da Maia. Liga Portuguesa
contra o Cancro. Edium Editores