Quarta-feira, Maio 22, 2013

Com o tecer dos anos



Cruzamos, com o tecer dos anos,

Mendicantes tons de cansaços

E se deles pouco sabemos

Quando evocados

Seu olvido pretendemos

 

Pelo intervalo diminuto da hora

No inverso do espaço

Passam sonoridades mudas

Na revolta dança das aves

Outrora leves e  puras

Que nos cruzaram cantares

 

Amanhecemos cedo entre a rama

Em ondas azuis e claras

E na contracapa da palavra

Desfazemos muros esparsos

Olvidando duros momentos

Em outros tempos navegados

 

Queremos e sabemos,

Com esse sentir tecido nos anos,

Da palavra, o revolteio ameno,

Qual murmúrio leve no espaço

Que silentes afastamos

Para que na palavra proceda o canto

Do sorriso, na paz alcançada

Terça-feira, Abril 23, 2013

Convite "Asas de Poesia"

 




Domingo, Março 17, 2013

Asas de Poesia






 








 Encontrar-nos-emos lá.
 Um carinhoso abraço e uma flor
 
 


Domingo, Janeiro 06, 2013

Vi!


















Vi, ninguém me contou,
o que sentias nessa pele
seca, dura e fria,
outrora tão macia e cuidada


Vi, com os olhos que o ser transporta,
sentires diversos
caminhantes de porta em porta
que abrias e não fechavas


Vi a omissão de plenos dias
nas folhas desbotadas pelo tempo
nesse livro adormecido
que não cuidavas


Segui teus passos em silêncio
qual cristal pela neblina esfumado.
Por ti, senti o medo
na flor de um tempo não desabrochado
quando passaste
absorta, num mundo distante,
a meu lado


Crê que as agruras da vida
serão a luz nos teus passos
das horas acres, indomáveis
em que te vi
amorfa, desatenta, desesperada

Sábado, Maio 26, 2012

Do vento...

Falemos do ruído do vento
Do despertar intenso em cascata
Das mãos que em sonhos se agarram
Às névoas escuras e claras –
Estigma de esmaecidos momentos
Em branco e preto sentidos

Falemos de todo e qualquer pensamento
Correndo nas veias do acaso;
Das folhas redondas que caem
Em leves ornatos de dança
Sobre o prado que as enlaça
Verdejante ou definhado

Falemos da terra que trais
De que nasceste e para onde vais
Em adornos de renda;
Da mulher formosa que pariu ais
E a ti dedicou sua senda;
Dos capitéis jorrando lágrimas -
Refllexos em transparências -
No leito seco do rio

Falemos de memórias trazidas no vento;
Da rama esmagada, dolorida
Reclamada pela encruzilhada do tempo
Sem mais espaço nem medida;
De gente leve em cantaria -
Entalhes de vidas cruzadas
Pelas Sílfides – na sina em ti assente

Falemos baixinho
Mas falemos
Da palavra a ausência
Em imersos sentimentos

Sexta-feira, Maio 11, 2012

Flutuando

Parti
sob as brumas de um recente passado
no marasmo intenso dos dias

De súbito, das letras me apaguei
e ainda hoje não sei
das palavras fugidias

Durante a noite dos dias
em véus adormecida
portas, janelas fechei
aos tempos idos:

minha mãe, sorrindo, as abria;
meu pai, um poema inacabado
em meu peito escrevia
com flor de sal e água
que o silêncio afagava
qual doce canção de outrora
nos caracóis de menina

Assim permaneci tempos infindos
sem hora nem data de despertar o arco-íris
amar a dança em mim intensa
sob brandos sons emitidos
da aveludada flor em rosa aberta
com ternura e sorrisos



(pintura de Chen Yang-chun)


Segunda-feira, Abril 16, 2012

Labirinto dos sonhos


Caminhava num estreito e degradado corredor
sumida nos sons de um silêncio profundo, abstracto.
Para trás, ficavam seres estranhos
com seus olhos carregados num misto de dor, ódio,
desconfiança e espanto.
Caminhava apressada como que instruída
pelo apelo da derradeira porta.
Na sua pressa, quase esbarrou com três homens furibundos
sustendo no ar uma frágil e pequena cadeira de pinho
ocupada por uma criança com uma corda grossa no pescoço.
Atónita, alarmada olhou para cima.
A meio metro da cabeça, a ponta erecta estava cortada.
Entrou no quarto dos fundos onde uma mulher desvairada
acusava, com gestos, o menino da cadeira por todo o mal sucedido.
Que mal?
Porquê tanta demência se nem um som se ouvia?
Olhou ao seu redor tentando entender o que apenas sentia.
Naquele quarto pequeno, onde o caos se tinha instalado,
avistou mais duas crianças, imóveis, subnutridas:
uma num canto em novelo encolhida,
outra numa enxerga e virada para a parede.
Devagarinho, rodou-a.
O seu mundo era outro.
Aquele das coisas mais simples e belas
onde a mobilidade cerebral a ciência ainda não conserta.
Mais tarde veio a saber que, a menina da enxerga,
havia sido encontrada, abandonada, num destroço qualquer.
Ainda hoje estremece pela peculiaridade isócrona do sonho.
(pintura de Carrington)