quarta-feira, dezembro 01, 2004

Tempo

Olhando através de um centímetro de fresta da janela reparo que lá fora não chove ainda.

Telhados luzidios escorrendo gotas, árvores desnudas lustrosas erguem seus braços esguios para o infinito em preces indicando caminhos.

A buganvília lutando contras as intempéries mantém teimosa os cachos de flores secando uma a uma enquanto o azevinho viçoso em colorações de verdes mostra orgulhoso suas pintas vermelhas.

Tempo soturno, alagado na serenidade da Aurora que despontou sem o brilho do Sol.

Os pássaros, rolas bravas e melros não me vieram visitar enrolados no aconchego dos ninhos. Só as gaivotas pairando nos céus. Prenúncio de tempestade.

Momentos de silêncio, tranquilidade, de quase paz, rodeante.
A Mente voa leve pelos ares sem sonhos em meditações de mim.
Encontro linhas suspensas paralelas, umas com bifurcações deslocantes cientes da inteligente luminosidade que emitem, outras brilhantes de mãos de sonhos voantes no éter.
Seguindo lenta e cautelosamente seus trajectos não olhando o abismo negro envolvente que pressinto, encontro secantes e paro suspensa nos ares analizando.

Retorno deixando que o tempo em Tempo transforme.

5 comentários:

frog disse...

Céu alto, além, eternidade / Céu azul sem sinal de amarguras / Céu onde pairam seguras / Bem longe da tempestade / Os sonhos e as loucuras / Que vencem as leis da gravidade...

sem medos...

Beijo grande

Carmem L Vilanova disse...

Esté muito bonita esta poesia! Aproveito para dedicar-te esta Oraçao do Tempo, uma cançao de Caetano Veloso, que foi a primeira coisa que eu me lembrei quando li o teu lindo post.
Muita paz e beijos!
Carmem Lúcia Vilanova
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ORAÇAO DO TEMPO
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que eu te digo
Tempo tempo tempo tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definitivo
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo

JPD disse...

Olá
Gostei muito deste teu texto.
Um tempo como aferidor do nosso (teu) apaziguamento, tempo livre de aflições, de qualquer falha espúria.
bjs

Manoel Carlos disse...

Telúrica e bela forma de compor uma cena.

lique disse...

As tuas palavras pintam um ambiente, uma paisagem sobre a qual pairas, com o teu olhar sereno. Beijinhos e bom fim de semana.