domingo, outubro 14, 2007

Setembro

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket


Intoxicados são o tempo e a vontade
sob o ar rarefeito dos aromas mortos
em branco adejado no que urge e faz demora
qual contrapeso no degrau compacto das horas

O silêncio esvaziado das vozes em mim cantadas
suave e lentamente dia fora
acarretam saudades dos trinados
em suspensa melodia aquosa

Assim se fez o Setembro da casa em obras

Mas quando as portas da noite se abrem
renasce em malhas de lã a vida
multiplicando mimosas flores nos dedos
onde apenas o amor dá sentido
no profundo sonho infinito
da árvore, do sol – terno aconchego –
etéreo jardim que me abriga


(pintura de Ana Vieira)

Poema in "Transparência se Ser"

sábado, setembro 08, 2007

Hora de ponta


pintura de Cecília Ferreira

Caminha-se na paralisia do tempo
em fragmentos dissipados
e cria-se a oclusão selectiva dos passos
na temperatura metódica da posse
que a luz indirecta tem e que abre
sobre a mesa do pão-nosso de cada dia
em trapos de mármore

No tumulto da hora de ponta
evanesce-se o sorriso
em deambulações automáticas
na superfície vertical dos hiatos
que, das tempestades invisíveis, são tributários
quais vidas em saldo
perante a irracionalidade do mundo
de que tu e eu fazemos parte

Assim desliza o tempo e a vontade.
E aqui, do meu canto,
embalo as frases sofridas
chegadas nas auréolas da chuva
pela Natureza derramadas
na eterna esperança
que Luz se faça


(Breve nota: Ausente por obras em casa
com carinho vos abraço.)


Poema in "Transparência de Ser"

quinta-feira, agosto 30, 2007

Momentos


pintura de Arthur Rackham

Entre o mar e a relva onde me sento
habita um fluir em sussurros verdes
pela rama do parque que guarda e entende;
bifurcada, desliza uma estrada no vórtice do tempo
e, do sentido adverso, em razão suspensa

Quantas vezes pelo silêncio me chegam
nas pontas das folhas ao sopro do vento
amenas melodias
breves excertos de vidas
indizíveis e cálidos momentos

A todos enlaço na vereda dos fonemas
leve, tão leve que o avivar surpreende
o mistério da estrada em cores desperta
que a Natureza me estende
pelas raízes singelas
da infinitude da mente

Em voo suave, um doce sorriso plana
entre ti de mim ausentes
na musical perenidade da palavra


Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, agosto 21, 2007

Passagem


Pintura de Freydoon Rassouli


Avistara-se no poço profundo de janelas dúplices.
Uma, aberta pela brisa nocturna;
outra, pelo mar sereno em prata clareado

Encontrara-se e via
a fluência da inusitada e nobre palavra
nos trâmites da cidade camuflada
pela diligente armadura
em sol e sombra projectada
nos brilhos da folhagem feita água

Remexia, e abrandavam os luares sobre a margem
quando, pela hora do silêncio,
dançavam sorridentes pássaros

À luz do crepúsculo
volatilizava-se em correntes freáticas
no encaixe perfeito do nicho encontrado


Poema in "Transparência de Ser"

sábado, agosto 11, 2007

30 de Julho...


Pintura de Danielle Richard

Para ti, Amiga, neste dia especial, com os votos
sinceros de um caminho pleno de Luz e Alegria:


Um jardim, uma rosa, um lago.
És um oásis na cidade fremente
Que passa do outro lado
Entre muros, asfaltos, mas presente.

Jardim de aves levíssimas
Musicado de verde.
És um relógio, suspenso.

Rosa irisada pelo sol doirado
Solitária na cadência do dia.
És a palavra nua, infinda.

Lago azul de dançantes seres
Vogando em pontes, laços, abrigos.
És água de serenos sorrisos.

Que somente
Sob a fragilidade do tempo
Tudo vês e tudo sentes.

És a sensibilidade isolada
Por entre a cidade correndo.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Dois Mundos
















Zelamos, com o crescer dos anos,
esse mundo dos segredos,
e da osmose não sabemos
se adormecemos o sono
se o sonho acordamos.

À luz do crepúsculo,
em matizes de fogo e chama,
emergem dedos em melodia aquática -
estranhas danças, leves solfejos,
pinturas silentes, abstractas -
num aroma adocicado sobre a casa.

Observo, admiro e comparo
da chuva, a pluralidade
das formas caindo no campo -
sem hipótese nem escolha -
sentindo da terra a proximidade

Sob a acalmia profunda que se abre,
da tela desvanece-se o chilreio das aves,
a estridulação dos insectos,
do vento o sopro nas gruas da árvore
e, perfeitos, os dois mundos cantam
o centro da água.

Deles não se prevêem espaços.


(pintura de J R Costa)
(em pesquisa Google)


Poema in "Transparência de Ser"

quarta-feira, julho 25, 2007

Eterno abraço

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket


Enlaço-te
numa rama profunda e delicada
nas letras em densas águas
voluntariosas que não acalmam

Acompanho cada passo de luz e sombra
quando espelhas cansaço
da luta que te permeia
e, silente, espaças

E vivo
a Dita, a Desdita, com que enfeitas
outros traços
paralelos, singelos, que interessa?!,
se deles me fazes parte

E se me calo
e de silêncio adormeço
estremeço
sempre que um adoro me voa
e me lembra cantigas de outrora
no baloiçar de um eterno abraço


(pintura de Pierre Auguste Cot)


Poema in "transparência de Ser"

quinta-feira, julho 19, 2007

A Parnaso


























Estranha és, ó Visitante,
mãe das horas profundas silenciadas!

Em folha sépia desfolhas palavras nuas,
no corpo de cada pedra escura
ondas brilhantes abres,
mais doces que um sítio isolado.

Libertas o medo das frias manhãs cansadas,
em letras voas pelo lanço da escada
íngreme, movendo um círculo espiralado
tecido num tubo de água.

E me ditas com ternura
da terra as sombras
em rama fina e delicada,
do pó do deserto o ouro, a prata,
nos entre-veios das pétalas rubras
em danças leves pela sala.

Estranha és, ó Visitante,
na candura com que enleias e traças
as asas que a brisa suave canta.


(pintura de DelMar ) aqui

sexta-feira, julho 13, 2007

Desafios

Em tempo devido, já pelo mesmo ultrapassado, tive a honra de ser
nomeada pela Maria* e pelo Peter** para dar seguimento à
corrente “Meme” que, por idêntico motivo, me abstenho de
explicar e a quem muito agradeço.

Transcrevo, de seguida, uma das inúmeras passagens constantes
do livro “Crónica do Pássaro de Corda” de Haruki Murakami que
muito gostei de ler e que deram origem a um ou outro poema por
me terem feito pensar.

“Sem dar por isso, comecei a falar sozinho. Num sussurro, saíam-
me da boca fragmentos de reflexões de que nem eu próprio tinha
consciência. Era superior ás minhas forças. Desligada da minha
mente, a minha boca movia-se sozinha, de maneira automática,
independentemente da minha vontade, lançando nas trevas
palavras que aos meus olhos não faziam sentido. As palavras
provinham de uma zona de sombra para logo a seguir serem
absorvidas por outra. O meu corpo parecia ter-se transformado
num túnel vazio, uma conduta a ligar dois pontos por onde
transitavam as sílabas. Tratava-se de fragmentos de reflexões,
sem sombra de dúvida, mas era como se aqueles pensamentos
fossem gerados fora da minha consciência.”


Pelo exposto no primeiro parágrafo, também me sinto muito
honrada e grata ao Manoel Carlos*** pelo desafio sobre
“O que ando a ler” e que convosco partilho:

“Inquérito às Quatro Confidências” de Maria Gabriela Llansol -
escritora portuguesa, duas vezes galardoada com o Grande
Prémio APE e com várias obras de mérito publicadas.

“Confissões de uma Liberal” de Maria Filomena Mónica – um
livro de crónicas focando vários temas da actualidade, revelando
a sabedoria de um olhar inconformista, liberal e céptico, sobre a
realidade portuguesa e estrangeira.

“Combateremos a Sombra” de Lídia Jorge – escritora
portuguesa muito conceituada e considerada como uma das vozes
mais originais e poderosas da ficção do nosso País. A acção
desenrola-se sobre a condição de zelador do mundo secreto,
de um psicanalista.

Apesar de não dar seguimento aos desafios, pois a todos nomeio,
aproveito esta oportunidade para agradecer aos meus amigos
Clave de Lua II, Letras Pinceladas e Nimbypolis (constantes
dos links) a amabilidade que também tiveram em nomear-me
para o Thinking Blogger Award e aos quais não tive
oportunidade, em tempo, de agradecer.

Grata por tudo, com muita amizade, a todos desejo muita luz e paz
nos vossos caminhos.



* http://wwwthornlessrose.blogspot.com/

** http://conversasdexaxa4.blogspot.com/

*** http://www.agrestino.blogger.com.br/

domingo, junho 17, 2007

Flamas de Junho


















Espalhar do amor o tempo incerto
dos lírios e açucenas nas urzes nascidas no deserto
alinhadas em folhas de linho
e da água omitidas que urge e se bebe

Leve será o sonho, ilusão tardia
percorrendo o tabuado convés do navio
que se lava de tarde e atrasa
a brasa nele contida
entre as folhas orvalhadas da vida

Espalhar o amor na plenitude da aurora
quando o enlace do silêncio não tarda a demora
daquele voar quieto, de celsitude aberta
no transporte do que subsiste
aqui, ali, tão breve e perto

Menina de amor silente e de vela
adormece flamas de vento
em doce espera

(pintura de Lord Frederick Leighton)


Poema in "Transparência de Ser"

segunda-feira, junho 11, 2007

Breve nota

Olá a todos

Apresento as minhas desculpas pela ausência forçada.

Estou sem computador e ainda não sei se terei de
adquirir um novo.

Este tem um sistema operativo completamente
diferente e, além disso, só esporadicamente me é
permitido o acesso.

Espero que compreendam esta situação imprevista
e a todos desejo dias plenos de sol e, acima de tudo,
que sejam felizes.

Com muito carinho e amizade, um grande abraço da
Amita

sexta-feira, maio 11, 2007

No fio do poema


















Pela boca do céu corre um poema velho
em amor, sol e espuma do rio é leito;
se nas cerradas janelas em escolhos flutua
moroso nos passos, a palavra desnuda

Pelos caminhos bifurcados o rio se alarga
nas ondulantes areias de um só traço
qual folha muda em lenta desfolhada
no leve poisio de um ponto no espaço

Será talvez um poema no fio das horas
sobre a antiguidade - tecidos de um canto –
onde breves letras expandidas em branco

sob círculos ovalados se desdobram
e no repouso dos joelhos aninhadas
em silêncio pairam, as mãos cantadas


(pintura de Nasrin Afrouz)

domingo, maio 06, 2007

Fitas e Laços


















Levanta-te, poeta, e ergue a tua taça!

Brindemos ao tempo das fitas
universitárias,
ao empedrado desfile pela praça,
ao passeio por ruas estreitas
escalonadas,
ao arrasto das latas e pinturas abstractas,
às intrigantes vozes em monocórdicas musicalidades,
nos ritos e rituais pela estrada dos laços.

Brindemos! E então talvez
se depositem ocasionais máscaras,
as penas das aves fecundem das caixas a opacidade,
os rios subam escadas desérticas
na diletante engenharia matemática,
e um fonema a expensas isolado
se liberte num voo cantado.

Sejamos coesos e unos
no misterioso conceito dos traços
para que sob os alpendres minúsculos
cresça a Paz das árvores
e de todas as casas suspensas
jorrem flores pelo espaço.

Se fitas não tenho, poeta,
teço linhas em amenos laços.


(imagem do Google)

segunda-feira, abril 30, 2007

A Consulta

























Longo e lento ritual programado em anos
sob a morosidade do pêndulo sustendo cabeças
salpicando ilusões e desenganos.

Passeava pelos corredores apinhados de gente
em romaria parada
e vagueava no sentido das idades indefinidas
sustentadas pela parede qual suporte ansiado
pelos traços de cansaço e na espera entorpecidos.
Horas tecendo o frio…

Resistentes espelhos de dor e mágoa
na previsão dos planos sobrevoados.
Deles, em número, tornava-se parte
nas águas pelo frio adentradas
nas correntes do navio em cais parado
na embriaguez de voláteis asas
esbatidas entre o negro e o verde pálido.

De quando em vez, alguém passava apressado
sob as ideias fixas dos papeis remexidos
com sombria cara.

Então regressava ao ameno poisio do livro
aberto sobre o plástico e escrevia…
Até que uma voz estridente estremecia
o silêncio rumorejado
despertando os cordeiros no espaço fechado.


(pintura de Rogério Ribeiro)

segunda-feira, abril 23, 2007

Paisagem














Encadeiam-se semanas…
Se a contento tudo passa
passará também o vento
na acalmia da brisa silente

Da força que me anima
construo pespontos de asas
e assim vou caminhando
em lentos e serenos passos
sobre casas, navios, escadas
frondosas árvores
que ocasionalmente avisto
sob a brisa marítima orvalhada
jorrando cascatas
na obliquidade escusa dos traços
no paralelismo confuso da matemática
ou no ponto minúsculo do poema
que no nada-tudo observa e cala

Que mais dizer se de um talvez se edificam
muros em escala?
Será porventura um sustento no espaço?

Do tudo apenas sei nada…
Qual ponto mínimo
observo, medito e tento
alcançar sábias palavras
sob a escassez do fio do tempo

Se ainda existo
a serenidade com carinho embalo
num límpido e terno sorriso claro
sobre a paisagem


(pintura de Júlia Calçada)

quinta-feira, abril 19, 2007

O Centro



















Em sereno repouso

medito

o Centro perfeito do lago...


(imagem de Freydoon Rassouli)

quarta-feira, abril 18, 2007

Prémio...

Surpreendida e honrada agradeço à Poesia Portuguesa as palavras e a nomeação deste blogue com o prémio:

Tarefa difícil é-me imposta agora, ao ter de escolher 5 blogues da minha preferência. Todos o são, mesmo aqueles que, por escassez de tempo, ainda não incluí nos links.
Assim sendo distingo, pela enorme qualidade que poderão verificar, os seguintes:
Manoel Carlos

Nilson Barcelli

Meia Lua

Peter & Cª

António Melenas


Na esperança de que a corrente tenha continuidade, aqui deixo o carinho de um imenso abraço.


Imagem fotoplatforma

sexta-feira, abril 13, 2007

Les Trois Arts














Assim nos quedamos
no breve relaxamento dos anos
nas horas passadas em pontas
que teus dedos em branco e negro
o meu cetim afagaram

Cúmplices segredos
na postura do silêncio
dos rituais em leves traços
e dos sussurros, os embalos



(resposta ao desafio da Maria a quem agradeço)

Tela de Júlia Calçada


sexta-feira, abril 06, 2007

Venho ...














Venho de um tempo de graciosas asas
pelo silêncio adormecidas quando acamadas

de paredes nuas que ao longe me penduram
rostos inanimados sobre o telhado das árvores

do cume da montanha unido ao umbigo do vale
com pespontos de água sobre a estrada

do seio das mulheres translúcidas
da terra nascidas e da lua sussurradas

do mar, a solidão amanheço a escada
nas miscigenadas vagas de azul e verde

Venho, permaneço e caminho
no amor em branco-prata
a serenidade doce da cantata.


(pintura de Noronha da Costa)

(perante a temporal impossibilidade de visitas a todos desejo uma Feliz Páscoa)

domingo, abril 01, 2007

A indelével certeza

























A indelével certeza dos anos encostados à parede
Se em mim cobriu enganos não teceu erros
E dos muros levantados amarelecidos no tempo
Resta a árvore que sustenta os longos fios
De um cabelo em marfim penteado
Que pelos afagos dos dedos
A raiz alimenta

Floresce a dança perene da memória
Em vagas macias, leves
Em laços de rede fina
Ondulando dos anos a hora
De mulher menina que canta
A indelével e alva certeza da brisa
Que anos tece nos cabelos

E te bebo minha hora perdida no tempo
Na leveza deste sentir em contemplação ausente
Quando me sento sob o silêncio das folhas
Em doce acalento


(pintura de Corinna Button)

segunda-feira, março 19, 2007

Entre dois tempos
















I

Hoje...
Especialmente hoje...
que avistei peixes negros de bocas cosidas por dentro
pés de cabelo, sem sustento
lançando fogos de artifício
de brilhos desprovidos
e trajando enganos

Hoje...
Especialmente hoje...
o suave perfume da mensagem
reforçou os frágeis troncos da jangada
que no Amor ruma alada
pela consistência da viagem.

(escrito em 16 do corrente)


II

Transmutaram-se os peixes em pássaros
Soltando faíscas obscuras das inexistentes asas
E marchavam lentos enganos
Quais soldados de chumbo caramelizados
Derretendo viscosidades sobre o telhado
Que do jogo faziam parte.

Por vezes voam distraídas as projecções dos dedos
Na imprevisível chegada de pássaros negros.

Circunscrito o ontem no percurso
Bordo árvores de papel imaculado
Em orientais pastos recortados
Onde despontam as flores que uso
E o doce sorriso de um abraço
No branco-azul sereno de um canto.


(imagem de Young-jin Han)

domingo, março 11, 2007

Tempos de Matéria
























Fina e ténue linha separa o riso do choro.
Em ponto pequeno é um sinal de fogo e
de revoltas águas no areal inconsistente das casas.

O frenesim da matéria descansou leve
no inabalável passo dos anos.

Tantos anos…
respirados sob lentes fumadas
e de opacidade surda ante
uns quantos estremecidos brados
de um presente passado
pela floresta dizimada
pela alva montanha liquefeita
pelo mar rasgado em actos metálicos
e na dor sem sombra das crianças
que a fome e a guerra enlaçam
nas horas loucas perdidas no Tempo

Fina e ténue linha separa o riso do choro
quando sob o areal inconsistente das casas
o Homem demente não age, ainda pensa …


(imagem de Lucemar de Souza)

terça-feira, março 06, 2007

Véus de redes
















E caminhamos
Sobre reluzentes espaços
Onde nas nuvens espaçamos os sentidos
De deliberada e urgente ausência

E tornamo-nos aves de vento sobre
O sentimento de palavras
Outrora de planos leves quando
Em inocuidade
Seguimos os fáceis traços não vistos
E na incongruência tecidos
Lenta-mente sobre sorrisos doces
Como aquela criança inocente
Brincando na infinitude da mente

Do tudo algo se sabe, se sente
Por vezes numa única palavra
De um passo na brisa suave
Que em sussurros nos canta
Barcos, árvores e fogo
Sob o degelo do entendimento

Para onde caminham as águas?

Assim meu coração clama
Em brados de mar e vento
Para que serene eternamente
E do amor se teçam véus de redes
Na plenitude refulgentes


(imagem de Rarindra Prakarsa)

domingo, fevereiro 18, 2007

Até sempre!

Este sítio permanecerá em descanso por tempo indeterminado.

Sensibilizada, Amita agradece o imenso e inesquecível carinho
que lhe dedicaram nestes quase 3 anos de existência.

Com a ternura de um abraço, a todos deseja um caminho
pleno de brilhos.

Bem Hajam!

quinta-feira, janeiro 18, 2007

À deriva














Emblemáticas, monocórdicas, arredias,
pelos dias pairam letras e palavras
numa invasão programada
e de constância interrompida
trespassando as paredes da casa

E alego convincente
- Amanhã vou! - Ia…
se o ontem no presente
pelo nada se abria

E soldava-as lentas e leves
num espartilho de sal e pedra
na certeza desejada e incumprida
daquele sorver de passos
vozes, beijos, rever laços,
em lonjura adormecida

Sob a equidistante neblina,
adensada e caminhante,
embalei as velas do nosso barco
numa serena deriva
onde verdes peixes cantavam
nos murmurados solfejos
de um mar de amor, paz e vida

Emblemáticas, monocórdicas, arredias,
dançam letras e palavras
na lesta terminologia
de fortes correntes de água


(Fotografia de Zacarias Pereira da Mata -
Blog: http://zacariasdamata.blog.com/ )

Poema in "Transparência de Ser"



domingo, janeiro 07, 2007

sublimando...






















Sob os aglomerados,
caminham as cidades
em bandos apressados

Não se falam, não se tocam e, se param,
pelo vazio o olhar se esquece,
espartilhado, estreito e ténue.

São como teias de vento e divagam
no cursor breve da matéria
esboçada em cinzel de água e pedra

Além, do alto, em qualquer parte,
medita-se, e de nós se faz a espera
tecendo candeias em peito aberto -
modeladas, sublimadas -
e com suavidade se espalham
em alvas árvores… de neve


(pintura de Shinichi Osawa)

Poema in "Transparência de Ser"



sexta-feira, dezembro 29, 2006

Rosas brancas














Encomendei as flores mais belas
Rosas brancas
Tão singelas
Para um cântico de Luz
Espalhado no caminho
Leve, doce, infindo
Que à Paz de todos conduz.

E em enlaces de melodia
Suave, profunda e linda
O Tudo cantava, sorria
Trazendo nos braços a água
A montanha, a pradaria
As pedras, os seixos, as aves
E a alma do poeta breve
O infinito em fé se abre
E sob o brilho intenso…
Sereno...
Caminha.




Parabéns Maria Azenha


A todos os amigos desejo um Feliz 2007
com muita Paz e Luz nos seus caminhos.

sábado, dezembro 16, 2006

em tela suspensa


























Perante uma outra de mim oscila a hora
posta e exposta na rectangular forma
de um espaço fechado

O que sente não se sabe.
E passam… e repassa
no olhar, a curiosidade
sobre a mancha escarlate
imobilizada, enquadrada
na suspensão de alvas extremidades

Talvez os braços estenda sobre as águas
e, sem limite nem fronteiras, as afague
nos dedos, nascente de mar;
ou descanse o filtro coado do pensamento
ante muros levantados de cal
envolta no azul da mente

Talvez sorria sussurros ou pense
na solidariedade do momento
no gracioso cântico das almas
no suave leito de lama quente
eterno retorno de gente
ao doce embalo da criança

Posta e exposta
oscila a hora,
o instante breve
no canto perene do Tempo


(pintura de José Luís Abassolo)

Poema in "Transparência de Ser"



A todos desejo alegres Festividades plenas de Amor e Paz.

sábado, dezembro 09, 2006

como é urgente...
























Urge do amor o canto pleno
o orvalho em manhã clara
a luz que a hora espalha
em mil cores e solfejos
pelos três cantos da casa

Urge tecer asas e lírios
num arco-íris de beijos
e nas pedras da calçada
pela chuva desbotadas
pintar meigos sorrisos

Urge do frio o aquecimento
dos pés descalços em brasa.
Urge o mar, a serra, o rio,
a fluência da verdade
no olhar que a brisa enlaça

Aclarar o dito, o não dito,
nos gestos da sociedade
e, do Amor maior, o brilho
terno, sereno em Amizade
como urgente é o momento
de Paz, no alento
do ouro manto das searas


Poema in "Transparência de Ser"

quarta-feira, novembro 29, 2006

Em sépia tela...


























Espalham-se como planos
Em lisos, programados dias
Sob indigentes funções de cansaços

Planam… e da Graça traçam
Dizeres que a escrita contempla
Em suaves voos pelo espaço

E fala-se de Amor intenso
Camuflado
Inchado no corpo imenso
Do poema que se expande
Na numerologia aberta
Indiscreta
Em desafios de um tempo
Inacabado

Do Amor se fende a Verdade
Inaceitável, crua
Quando no dorso do poema
Crescem árvores nuas
Em lava e neve cumeadas
E se verga
A menina que o trigo apanha
Indiferente ao rolo elaborado
Sobre o seu mundo de nada

E o sorriso desperta
Leve, tímido, pelo alerta
Da serena amizade
Olvidado num canto
Surdo, mudo
Em sépia tela


(pintura de Graça Morais)

In "Transparência de Ser"

quinta-feira, novembro 23, 2006

A travessia num sonho

























Talvez mais não sejam que ufanas velas
cruzando oceânicos navios
o esplendor de montanhas submersas
no ondular de algas e limos

Talvez voem, talvez cantem ou caminhem
junto aos peixes com dedos de linho
delineando desérticas areias e peregrinem
no olhar vago e silente do vazio

Talvez mais não sejam que um talvez
na morfologia de um tempo perdido
criados nos flocos de neve de uma vez
sem rumo, sem sorte, nem abrigo

Talvez existam… se breve os sinto


(pintura de Tanja Hoffmann)

Poema in "Transparência de Ser"

sábado, novembro 18, 2006

Cruzando a hora...

















Cruzando a febril hora
num pêndulo estagnado
liberto a nota breve
no repouso da memória
em “Mil Beijos”
com carinho enviados
na plenitude do aroma
onde voa a essência
dos sorrisos serenos
em ternos laços.

Até breve!
E desfrutem em beleza
as doces formas de Amar!

sexta-feira, novembro 10, 2006

Silhueta

























Pianíssima, amorteço
sob a planura da ausência
onde tantas vezes me sinto
e com ternura contemplo
os sons na pedra talhados
qual flor de sal em fios de linho

Escuto e de mim desapareço
no suave canto do rio
sob a ponte do Moldava
onde te senti pleno
ao meu lado
sorvendo do silêncio, a Beleza

Assim circundo da pedra os veios
diluídos nos serenos brilhos
pelo cinzel que estátuas talha
e que, de tão longe, sentidos permeio;
os coretos que música espalha;
o rumorejar de árvores entrelaçadas
suspendendo o casario
em outonais cores repousado

E danço… do voo, a silhueta,
na abstraída inocência
dos dedos, em fios de linho


(pintura de Manuela Justino)

Poema in "Transparência de Ser"

sábado, novembro 04, 2006

Deduções















Deduzem-se inconsistências em factos
sob a inexistência de pontos claros
e pela planície da noite se espalham
infusões de asas e... estrelas

Deduz-se…
e o tudo de nada vagueia por elas

Fora eu aquele papel branco desdobrado
outrora emitindo caravelas
por mares, em ondulantes verdes árvores,
e não uma terra de salas
compartimentadas
praticando ensinamentos
tão leves...

Sorriria, sim, sorriria…
da imperante crueza dos actos
desfraldados em decretos
que à velocidade da luz são jorrados
para um ontem… já presente

E de pés descalços correria
pela copa de cada árvore esmaecida
levando pão, o sustento da Dita,
e a mão afagaria, contente,
dos brilhos, o ressurgimento

Deduz-se…
na sombra
um vento bordado de estrelas


(pintura de Gracinda Candeias)

Poema in "Transparência de Ser"

sexta-feira, outubro 27, 2006

Em suspensão























Nos fios de um sol fulgente
Guardados em folhas de prata
Há um mar infindo, sereno
Sustido sob uma árvore
E no azul-cobalto estendem
Invisíveis lembranças de asas

No palco, o teatro negro desenrolava em cada mente
Sentidos diversos, como um conto inacabado.

Sob o artifício do sonho provocado
Deslizavam imagens em sucedâneo:
A transparência dos espelhos
Da luz da vela, os passos
A magia na pintura do palhaço
Aquela sombra humanizada
A cadência dos gestos repetidos
Que a vida em fluxos espaça

E a menina suspensa, qual Alice,
Rodopiava pelo espanto
Pelas lágrimas da saudade
Pela interrogação da dança
Pelo sopro dos afagos
Entre sorrisos doces e claros

Na rama de uma árvore de prata
Sobre um mar azul-cobalto
Guardo memórias, encantos…


(imagem de Zhang Hongtu)

sábado, outubro 21, 2006

e renascem borboletas...















Da vida não teço conceitos
E deixo correr a meu jeito
Acasos da dita

As palavras por direito
Deslizam em ruas antigas
Que calcorreio em cantigas
Livres solidárias sem preito

No silêncio em folhas gravado
Componho do sorriso os afagos

Pelo meu caminho espaçado
Atento em todo o lado
Das palavras o alerta
Na alma sempre desperta
Do grito do sonho omitido
Do medo da descoberta

Com carinho os enlaço
Tentando suster abrigo
No véu outonal que crio
Por onde leve passeio
Quando em branco me deito
No brilho da brisa serena.

E renascem do passado
Coloridas borboletas.


(pintura de Cruzeiro Seixas)

terça-feira, outubro 10, 2006

Em Demanda




























Jamais poderia renascer a escrita
afundada e fundeada no denso silêncio de dias

Então quebrou a guerra-fria interiorizada
o ténue fio do pensamento que letras unia
e partiu sem nada, de mãos vazias

Era a fuga, a nudez necessitada,
da tempestade pressentida
de todos os dramas em cascata
dos desencontros em luares de prata
das vidas descalças no paralelismo
dos carris baços sem destino
e dos contos de fadas…

No seu olhar espaçado corriam imagens
rápidas, fulgurantes, sem nexo ou ritmo
do rodar balanceado permitido pela estrada

Por vezes dormitava sobre o vazio
dos pés em marcha apressada
como um rasto seco de lágrima
no sulco longínquo da rocha pelo mar cantada
e na terra do nunca assistida

Encontrou-se em cada estátua,
em cada torre, ponte, muralha,
nos salões de castelos antigos,
no débil brilho da noite em esplanada
onde o sorriso serenamente dançava


(pintura de Cot)


Poema in "Transparência de Ser"

sábado, setembro 16, 2006

No repouso das mãos...



(pintura de J.M.Teles da Silva)*









Tal como de ti as vozes numa imensidão de azul se espalham
Tal como de ti reluzem as pradarias pela aurora orvalhada
Tal como de ti as estrelas cantam sobre um mar silenciado
E o vento os seres do deserto movimenta com seu passo apressado

Assim me mantenho e sustento
As águas trazidas pelo vento
A dor que se me aperta no peito
Pelas crianças estropiadas
Num abandono displicente
E planeado

Tal como de ti pressinto a escuridão dos dias planos
Tal como de ti modero o arrasto de incautos passos
Tal como de ti se me cortam do degelo as palavras
E avisto as folhas solitárias jorradas em brancas placas

Assim em incongruências nos vemos
Nos traços que a planura no espaço adensa
Na matemática geométrica dos braços
Como em súplica dos brilhos imensos
Que a terna Natureza qual criança
Serenamente, brincando, a si clama

E no repouso das mãos entrelaçadas
Desfiam-se contas de prata salgada….


* ( Agradeço ao pintor a autorização de publicar a imagem
cujo blog "sbrdvnt" se encontra nos meus links)

segunda-feira, setembro 11, 2006

Registos














Ouço-te num qualquer outro registo de dança
onde pensares e sentires são devolvidos em contracapa
nua, de cor única e vazia de espelhos

Olho-te e não te vejo.

Só os esboços estudados da dança
permanecem em meus ouvidos como inconstância
de desafios musicados
de suspiros
de muros levantados
e de búzios fendidos
por onde se escapa o que nem a brisa alcança

Olho-te por entre o arvoredo de um mar salgado
agitando formas de cotovelos apoiados nas águas
numa outra de mim que o registo fez parte
quando fendiam as paredes da casa
agora brancas, imaculadas,
pelo silêncio sorridente e ameno das asas
que descubro serenamente e destapo
nas cores luzentes das sonoridades
que enfeitam e alegram o espaço
no repouso cantante, suave,
do regaço que eleva e embala


(imagem de Pino Daeni)


Poema in "Transparência de Ser"

sábado, setembro 02, 2006

Sob o cuidado dos dias



















Reparte-se sob o cuidado dos dias
por onde flutua e caminha
em seus passos de dança

Reparte-se e não faz parte.
Divaga...
ao som da melodia clara
estremecida
nos seus braços de criança

E joga vida fora
com a leveza dos anos
Do Tempo não traz o momento,
nem enganos

E deixa que repartam seus cabelos
entre tranças, pendentes cachos,
ou em rabo-de-cavalo
com aquela fita luzente
que alvo bibe afaga
pelos folhos dos solfejos
ressoando pela sala

Parte-se e reparte-se
o cuidado breve das lembranças
que no centro de si vagueiam
doces, fluidas e cândidas,
e pelos sorrisos espelham
o que o Mundo não alcança

Oh! Que bom é ser criança...


(pintura de Claude Renoir)

Poema in "Transparência de Ser"



terça-feira, agosto 22, 2006

Nómadas














Perante nós desliza o nomadismo dos dias
seguindo a caravana no deserto.

Bem ao longe, uma miragem assemelha-se perto
na sede de novas alegres.

As horas sobrepõem-se em pilhas de dunas
consoante bate o sol no templo das vidas
já não nossas mas da comunidade
que transporta, nas mãos do vento,
areias da moda.

Saúdam-se em palavras contabilizadas
pelo pião dos números equilibrados
no gume das lâminas.

É tudo tão efémero…
Tudo tão curto e vago…
quando o hoje voou despercebido
e o amanhã se prepara
em ritos de agora passados.

Assim nómadas nos tornamos
aquecendo o frio intenso
na exactidão acesa do vazio.

E continuamos
sublimando as palavras não ditas
enroscadas nas mantas macias
que abriremos
numa qualquer tarde de um qualquer dia
quando atingirmos, desmedidos,
o oásis perfumado dos sorrisos.


Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, agosto 08, 2006

Neste mar...















Me revejo
Entre miríades de letras luzentes
Que não tento decifrar
De tão pequena, tão mínima

Meu ensejo
Traduz da vida o sustento
Na profundeza do mar
Onde erecta moro
Como estátua de sal

Se rastos não deixo
Não lamento.
Pelas ondas do silêncio
O meu grito é de Paz

A serenidade me anima
Com ternura me ensina
Quando, na imobilidade das horas,
Correntes de vento passam formosas
Querendo o tudo apagar
E na neblina se esvaem
Pelo ondear da paisagem

Algas e peixes abrigo
E na concha, um sorriso
Pintura de sol e luar
Reflectido neste mar


(imagem de autor desconhecido)

sexta-feira, agosto 04, 2006

Como dois rios...


Imagem de Susan Rios

Como dois rios*, atravessam o espaço
Na difusão da Beleza em palavras
Nada pretendem, nem querem
A solidariedade espalham
Em plena Dádiva

São rios de águas límpidas e claras

Por eles me curvo
Em silêncio os saúdo
E enlaço
Sobre meu leito sereno
De rosas luzentes e pálidas
Onde amanheço
Num mar de prata

(*)Estúdio Raposa e Poesia Portuguesa

sexta-feira, julho 28, 2006

Na Sequência do Sonho















Hoje amanheci entre a incoerência do sonho e a realidade.
O eco dos meus passos passeiam sozinhos pela semi-desperta casa
onde janelas e portas abertas expandem letras em palavras
desunificadas.
Tacteio o telhado intacto pelas raízes e ninhos de longos cabelos
dos pássaros.

Talvez voe
Talvez paire
Talvez caminhe no deserto das areias que embalam
Ou me quede pelo silêncio ou pelo nada
Se de ninguém o eco dos passos são parte

No interregno do sonho (in)acabado
bordo em azul, ervas, folhas e braços
nas árvores que me passam, em dolência, cantares
ritmados
rimados
na suave sonoridade da harpa
no timbre certo que dedos alcançam

Por vezes amanhecemos no eco dos passos…

Reajo
E sob as vozes de Mendelssohn no piano sofisticada e
de Rachmaninov no violoncelo o equilíbrio da sonata,
me banho no lago das águas límpidas e claras

Apaziguada
desfloro sorrisos em pétalas de rosas brancas
e na sequência do sonho
danço
o eco dos passos


(pintura de Renée Zempel Chan)

domingo, julho 23, 2006

Vagueares






















Para além do horizonte definido
repouso na luminosidade dos traços

Do nada, me torno parte de tudo,
um ponto mínimo,
passageiro olhar do meu canto,
na (in)visibilidade dos laços

Espalho sonoridades mudas,
alienígena das vozes em timbres marcados
por um diapasão de cordas, na batucada dos tempos
da infertilidade (in)consciente

De tantas recordo, na infinitude das horas,
sobre um espelho de águas mornas debruçadas,
no descompasso de rubras palavras

Aqui me torno, transformo e falo:
dos papeis a lápis gravados
incompletos
ante mãos que tudo colhem;
do útero da terra lavrada
onde trigo e joio medram na igualdade da palavra;
da cercadura densa na água límpida e clara;
dos murados sorrisos entre cidades;
e do suspiro…

Para além do horizonte definido
no azul vagueio serena
entre a luz dos pontos mínimos e traços


(imagem de autor desconhecido)

Poema in "Transparência de Ser"

sexta-feira, julho 14, 2006

E sobre a Água...






















Quando amanhece
fecho os olhos serenos
e no vazio procuro o som do silêncio
que ansioso me aguarda

Mergulho nas águas tépidas e cristalinas do voo
e a voz que me canta
acontece

Quão breve instante!
Não adianta!
Fogem as letras espavoridas
e se escondem tímidas
num espaço
que para já não alcanço
nem agarro

Desperto muda
silenciada e crua
pelas vozes rodeantes que me falam
da atenção exigida
da futilidade do dia
e do espanto

Então parto
para outra estória
outra vida
em breve-longa pausa

E sobre a água teço passos


(fotografia de Scott Mutter)

Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, julho 11, 2006

Da Gaiola Que Tudo Mudou....



















E tudo se aquietou de repente……..

Das flores com pés de vento nascem raízes
de palavras numa gaiola de barro cru,
aprisionadas.
No deserto (des)multiplicam-se as papoilas
rubras, fogosas do (in)certo derramando pequenas
gotas de chuva em verdes tonalidades.
Talvez agarre….
Talvez se prendam sob a aragem quente que
se faz como uma ventoinha girando em círculos
fixos… no concreto.
Da gaiola de sorrisos plastificados saem estátuas
em letras difusas, confusas, meias verdades… martelos
do pensamento para um séquito desatento.
Assim se (sobre)vive em pão minguado na prepotência
dos pássaros sábios.

E por entre os sussurros do silêncio
sob um braço metálico
tudo se aquietou...de repente…


(tela de Aloah)

quinta-feira, julho 06, 2006

Em Breve Espanto















Sempre que nesta pedra me sento
Na liquidez das águas mudas
Nasce um novo vento no espaço
De olhares abstractos
Instantes confusos
Na (in)visibilidade de letras claras
Que contemplo
Em breve espanto

Rodeante é a obliquidade dos fios
Que finas teias espalham
E pelos dedos pontiagudos
Esvoaçam insectos
À procura
Do sustento em folhas sépia
Como urze na areia do deserto

E aqui regresso
À acalmia das águas
Onde o azul é mais intenso
E pelos ciclos do caminho
Dançam os doces sorrisos
Nesta pedra onde me sento


(pintura de Modigliani)

quarta-feira, junho 28, 2006

No ilimite do sonho
















Acordo no ilimite do sonho
onde o tempo embebe as palavras
parcas, cansadas das margens

Acordo na insónia inusitada
por onde deslizam templos e fadas
e leves passos em doces cantares

De branco me visto
no sono da noite esparsa
que avisto em formas de concha e algas

De mim um terno sorriso embalo
na intemporalidade dos laços
que em contas o cristal desfiam
pelos sulcos breves da estrada

E no ilimite do sonho
sereno palavras



Poema in "Transparência de Ser"

sexta-feira, junho 23, 2006

Para além do limite do mar







imagem de Steph



Para além do limite do mar
Existe um canto nobre sereno
De vozes quando juntas se espalham
Em emanações abrangentes

Para além do limite do mar
Desabrocham das flores perfumes
Aromas que tudo alcançam
Em gotículas pelo mundo

Nesse nobre e sereno canto
A melodia em uníssono emitida
No terno abraço do sonho
Todas as cores enlaça
Desvanecendo o pesadelo
Que deste lado habita
Sob os muros d’água silente


Aqui, neste chão onde me sento
Entre raízes brancas e pretas
Sempre renasce a terra em silêncio
Quando, na turbulência do vento
As árvores seus braços pendem,
Se faça tarde e o sono aconteça
Pelas paragens do tempo

domingo, junho 18, 2006

Na Consistência dos Laços













Naquela tarde que Gaia vestia
Se abriram em palavras
Sorrisos francos, empatia
Novos laços criados
Reforço dos já antigos

Se letras o sentir espelham
A alma os olhos emitem…
Deslizando a hora pela sala
Como um tempo omitido
De doce saudade
Que Gaia vestia

Naquela tarde…



O meu sincero agradecimento ao Orlando, aos Amigos
antigos, aos novos lá presentes que tansformaram os
doces sorrisos em laços, pontes e traços, serenos e
profundamente sentidos.

quinta-feira, junho 15, 2006

Forma Circundante



Essa forma circundante que a palavra espreita
É vento, é chuva deslizando no parapeito
Das janelas em brisas cantantes

Essa forma circundante que olha, revê a estrada
É um esboço, um desenho em duas cores,
Uma tela sépia inacabada

Essa forma circundante que em beleza a mesclas
É um traço esvoaçante em asas doces e leves,
Um ciclo em véus de água

Sendo melodia, pó de estrelas, um vozear terno,
Ou dourada areia dançando nesse deserto,
Quedará sempre presente, constante,

Essa forma circundante

sábado, junho 10, 2006

s.t. - V

Leve….
Leve….
De uma doçura extrema
Da luz se fez o rasgo e a palavra
No epicentro da chama que te arde
Como sílabas espaçadas na roda dos ventos

Em desatino
Percorrem rios de lama dormente
Resquícios de lava solidificada
Na era dos tempos

Onde
A letra branca desmembrada
Em pontículos se abre e contempla
Essa luz que a serenidade aumenta